Depois de duas histórias marcadas por ironia, jogos de aparências e assassinatos cheios de estilo, "Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out" chega à Netflix nesta sexta-feira (12), cercado de expectativa. Não apenas por marcar o retorno de Benoit Blanc (Daniel Craig), mas por prometer - e entregar - o enigma mais intrincado da franquia criada por Rian Johnson!
Aqui, o mistério não se resolve com uma única virada surpreendente, e sim com camadas sucessivas de planos, mentiras, motivações conflitantes e escolhas morais que se sobrepõem até o último minuto.
Ambientado em uma pacata cidade do interior de Nova York, o terceiro filme da saga abandona o glamour extravagante de Glass Onion para mergulhar em um território mais sombrio: fé, culpa, hipocrisia religiosa e ganância. Tudo isso embalado por um crime que, à primeira vista, simplesmente não deveria ser possível.
A trama começa com uma cena que já se impõe como uma das mais impactantes da franquia. Durante um sermão agressivo no Domingo de Ramos, o monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin) entra em um pequeno closet ao lado do altar. Segundos depois, um estrondo ecoa pela igreja lotada. O reverendo Jud Duplencity (Josh O’Connor) corre até o local e encontra Wicks caído no chão, com um objeto metálico cravado nas costas.
Não há outra entrada. Ninguém entrou ou saiu. O espaço é minúsculo. O assassinato, portanto, parece impossível. Jud, recém-transferido, com um passado violento e tentando recomeçar na fé, rapidamente vira suspeito, enquanto a cidade entra em estado de choque!
É nesse cenário que Benoit Blanc surge, chamado para colaborar com a chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis). E, desde o início, o detetive percebe que há algo maior por trás daquela morte aparentemente inexplicável.
À medida que a investigação avança, o filme expõe o ambiente tóxico criado por Jefferson Wicks. Longe de ser apenas um líder religioso severo, ele comandava a congregação pelo medo, humilhação pública e discursos de ódio. Atacava mães solteiras, casais gays, fiéis que não se encaixavam em sua visão extremista de fé. Os que permaneciam eram justamente os mais vulneráveis... emocional, psicológica ou espiritualmente.
Entre eles estão Martha Delacroix (Glenn Close), sua devota mais antiga e braço-direito; Nat Sharp (Jeremy Renner), um dentista amargo após o divórcio; Samson Holt (Thomas Haden Church), zelador da igreja e parceiro romântico de Martha, alcoólatra em recuperação; além de outros fiéis marcados por ressentimento, fanatismo ou desilusão.
O filme deixa claro: todos tinham motivos para desejar a morte de Wicks. Mas motivação, Blanc sabe bem, não é o mesmo que execução.
O ponto de virada da investigação surge quando Blanc e Geraldine descobrem que Wicks estava envolvido em uma disputa silenciosa por uma joia histórica conhecida como Eve’s Apple. O diamante carrega uma história sombria: décadas antes, o avô de Wicks, o reverendo Prentice, teria engolido a pedra antes de morrer, escondendo-a do mundo.
A obsessão pela joia atravessou gerações. A mãe de Jefferson, Grace Wicks, foi demonizada pela família por destruir partes da igreja em busca do diamante. Agora, Jefferson planejava abrir o túmulo do avô para finalmente se apossar da fortuna!
É nesse ponto que o filme revela que o assassinato não foi obra de um único impulso, mas sim de uma conspiração cuidadosamente arquitetada e sabotada por dentro.
O plano original envolvia três pessoas: Martha Delacroix, Nat Sharp e Samson Holt.
Martha, que guardava o segredo do diamante há décadas, acreditava que a joia havia corrompido toda a família Wicks. Ao perceber que Jefferson seguiria o mesmo caminho, decidiu agir. O plano era engenhoso: ela droga o cantil que Wicks bebe após os sermões com uma substância paralisante e costura uma faca falsa em sua batina para simular o ataque.
Quando Wicks cai no closet, Nat entra como médico para “socorrê-lo”. Naqueles segundos a sós, remove a faca falsa e o esfaqueia de verdade, garantindo a morte. O assassinato acontece ali, sem testemunhas, sem possibilidade aparente de execução. Mas isso era apenas o começo.
A segunda etapa da conspiração previa algo ainda mais ousado: uma ressurreição encenada. No funeral, o corpo de Wicks seria trocado pelo de Samson. Dias depois, o túmulo da família seria explodido, e Samson sairia disfarçado de Wicks diante das câmeras, alimentando o delírio coletivo de um milagre.
Enquanto a cidade se concentraria na “ressurreição”, Martha recuperaria o diamante e o esconderia para sempre, encerrando o ciclo de destruição.O plano quase dá certo. Mas Nat Sharp decide romper o acordo.
Movido pela ganância, ele mata Samson na floresta e tenta assumir o controle total da situação. Em seguida, planeja incriminar Jefferson por tudo e ficar com a joia. Quando percebe que Martha desconfia, tenta envenená-la. Ela, no entanto, troca as xícaras. Nat morre com o próprio veneno. Socorro!
Destruída pela morte de Samson e pelo peso de suas ações - ter provocado a morte de Wicks e, diretamente, a de Nat -, Martha toma uma dose letal do mesmo medicamento. Antes de morrer, confessa tudo a Jud e recebe os últimos ritos.
Benoit Blanc ouve a confissão. Ele resolve o caso. Cada detalhe. Cada camada. Mas faz algo inédito na franquia: decide não revelar a verdade publicamente.
Questionado pela imprensa, Blanc afirma que não conseguiu solucionar o mistério. É uma mentira consciente, uma escolha moral. Ele permite que Martha morra com dignidade, sem ser transformada em espetáculo midiático, confessando apenas diante de alguém que realmente acredita no perdão. Mais tarde, a verdade vem à tona de forma discreta, pela polícia. Sem circo. Sem histeria coletiva.
No desfecho, Jud esconde o diamante dentro da estátua de Cristo no altar... um gesto simbólico que encerra a maldição da joia. Ele também muda o nome da igreja, ressignificando um espaço antes dominado por ódio e controle.
O filme deixa claro: o verdadeiro milagre não foi a ressurreição encenada, mas a possibilidade de romper ciclos de violência, culpa e ganância.
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