Quem chegou ao fim de “A Última Casa” pode ter ficado com mais perguntas do que respostas! O filme da Netflix começa como um suspense claustrofóbico sobre uma família que, de repente, descobre que não consegue mais deixar a própria residência. Aos poucos, porém, a produção dirigida por Louis Leterrier amplia a escala do mistério até revelar que o problema não está apenas dentro daquela casa - nem mesmo apenas naquele bairro...
Estrelado por Wagner Moura, no papel de Jason, e Greta Lee, como Ann, o longa acompanha a família Delgado durante mais de cinco anos de confinamento. No Brasil, o filme ocupa atualmente o 2º lugar entre os filmes mais populares da Netflix.
O desfecho, no entanto, não entrega uma explicação tradicional de ficção científica. Parte das respostas foi confirmada pelo próprio diretor em entrevista à Netflix, enquanto outras questões permanecem propositalmente abertas.
Tudo começa quando Jason, Ann e os filhos, Ruth e Graham, percebem que portas e janelas da residência não podem mais ser abertas. Uma força invisível parece selar a casa, enquanto uma chuva incessante toma conta do lado de fora.
O fenômeno não atinge apenas os Delgado. O bairro inteiro é afetado, e a família passa a viver sem saber o que aconteceu com o restante do mundo. A comunicação desaparece e os recursos começam a diminuir.
O que inicialmente parece uma situação temporária se transforma em uma luta prolongada pela sobrevivência. O salto temporal do filme revela que os personagens permanecem confinados por mais de cinco anos. A passagem do tempo é percebida não apenas pelo envelhecimento dos filhos, mas também pela própria transformação da casa, que vai sendo desmontada e reaproveitada pela família.
A chaminé acaba se tornando uma espécie de brecha na estrutura aparentemente impenetrável. Jason aproveita a abertura para criar armadilhas e conseguir alimentos, enquanto Ann participa da produção de comida dentro da residência. A equipe de produção contou com a consultora de sobrevivência Megan Hine para desenvolver soluções plausíveis para necessidades básicas como água, comida, abrigo e fogo.
É aqui que “A Última Casa” deixa de ser apenas uma história sobre confinamento. As figuras que aparecem na chuva são criaturas antigas ligadas ao oceano. E essa informação é particularmente importante para compreender a mensagem do filme.
Em entrevista publicada pela própria Netflix, Louis Leterrier explicou que esses seres existiam na Terra muito antes da humanidade. Na visão do diretor, os humanos passaram a ocupar e explorar um planeta que, na realidade, não lhes pertencia exclusivamente.
A explicação também está relacionada ao impacto causado pela humanidade: consumo excessivo, poluição, aumento das temperaturas e alterações nos oceanos fazem essas criaturas emergirem das profundezas. Por isso, o filme apresenta uma inversão da tradicional narrativa de invasão alienígena. Os humanos pensam que estão sendo invadidos, mas, na lógica proposta pela história, são eles que estão ocupando o território de outra espécie.
Leterrier resumiu essa inversão ao explicar que aquilo que parece uma invasão acaba revelando que “nós somos os alienígenas”. Segundo o diretor, as criaturas não chegam simplesmente para conquistar um planeta alheio: elas estão retomando um mundo que consideram seu.
O filme não apresenta uma explicação científica detalhada para cada regra do fenômeno. A própria equipe criativa prefere preservar parte do mistério.
O roteirista Matthew Robinson, em entrevista à TIME, explicou que a história foi construída para que o público acompanhasse o desconhecimento da própria família. As criaturas não recebem sequer um nome específico dentro da narrativa: os personagens simplesmente tentam interpretar os sinais que encontram.
Há, portanto, uma diferença importante entre o que o filme confirma e o que pode ser interpretado.
O que está confirmado é que as criaturas estão relacionadas ao confinamento, ao fenômeno da chuva e à transformação do planeta. A leitura apresentada por Leterrier é que elas estão tentando obrigar a humanidade a aprender a compartilhar o mundo em vez de dominá-lo.
Não há, portanto, confirmação oficial de que a família esteja em um purgatório, morta ou vivendo uma espécie de sonho coletivo. Essas interpretações circulam entre espectadores, mas não devem ser apresentadas como explicação oficial da trama!
Um dos mistérios mais intrigantes do longa envolve Ruth, a filha de Jason e Ann. Em vários momentos, a menina parece compreender as criaturas de uma maneira que os adultos não conseguem. Ela percebe sinais, observa comportamentos e chega a considerar a possibilidade de que aqueles seres estejam tentando se comunicar.
A explicação oficial, porém, não é que Ruth tenha poderes sobrenaturais. Segundo Leterrier, a menina possui uma espécie de intuição e abertura para possibilidades que os adultos perderam ao se concentrar na proteção da família. Wagner Moura também descreveu a personagem como alguém que pensa em uma frequência diferente da dos pais... Essa característica se torna decisiva no terceiro ato.
Depois de mais de cinco anos de isolamento, a situação muda radicalmente quando uma das criaturas consegue entrar na residência. A família se prepara para lutar. Jason, em especial, passa grande parte do filme tentando controlar tudo o que ameaça os seus. É sua forma de exercer a função de pai: construir, consertar, criar armas e encontrar maneiras de manter os filhos vivos.
Mas o confronto final coloca essa estratégia em xeque. A criatura acaba sendo presa pelos Delgado, e Jason tem a oportunidade de matá-la. É justamente nesse momento que Ruth intervém.
Ruth percebe que o ser pode estar tentando se comunicar, e não simplesmente atacar a família. Jason, então, decide confiar na filha.
Ele abandona a estratégia de destruição e permite que a criatura seja libertada. Segundo a explicação de Leterrier à Netflix, essa escolha demonstra que os Delgado finalmente entenderam a mensagem dos seres: para sobreviver, humanos precisam aprender a coexistir, tanto entre si quanto com o ambiente.
Para Wagner Moura, a decisão também fecha o arco de Jason. Também à Netflix, o ator explicou que o personagem passou boa parte da história querendo aquilo que acreditava ser necessário para proteger a família, mas que Ruth enxergava algo que ele não conseguia perceber. O gesto de misericórdia, portanto, é recompensado. A criatura deixa a casa sem selar novamente as portas.
Pela primeira vez em mais de cinco anos, os Delgado estão livres.
Depois que a família consegue sair, ocorre outra transformação importante. A chuva para e a casa finalmente desaba.
A explicação dada pelo roteirista Matthew Robinson à TIME é que a estrutura já apresentava problemas em sua fundação antes mesmo do fenômeno. Quando o confinamento termina, a residência não consegue mais se sustentar. O momento também funciona como uma passagem simbólica. Durante anos, aquela casa foi simultaneamente: lar, abrigo, prisão e mundo inteiro da família.
Quando os Delgado conseguem sair, aquele espaço deixa de representar o futuro deles. O desmoronamento marca o fim daquele período de sobrevivência. Não por acaso, surge na tela a indicação “Day 1” (“Dia 1”). É como se a família estivesse começando uma nova existência.
Uma das cenas mais dolorosas do filme envolve Cassidy, o cachorro da família. Com os anos de confinamento, os medicamentos acabam e o animal adoece. A morte de Cassidy é uma das consequências mais duras da escassez enfrentada pelos Delgado.
A situação chega a um ponto extremo quando Jason precisa considerar o corpo do cachorro como possível fonte de alimento para a família. A memória do animal, entretanto, permanece até o final. Quando a família deixa a casa, parte em um barco e dá à embarcação o nome Cassidy, em homenagem ao cachorro.
Sim. Jason, Ann, Ruth e Graham conseguem deixar a casa. Mas isso não significa que o mundo tenha voltado ao normal. Ao contrário: eles encontram um planeta profundamente transformado pela catástrofe e aparentemente dominado pela água. A família parte de barco, sem saber exatamente o que encontrará pela frente.
Essa é uma das perguntas que o filme faz questão de deixar no ar. Já no barco, Ruth usa o rádio para tentar descobrir se existem outros sobreviventes. Ela pergunta se há alguém do outro lado. Depois de um período de estática, uma voz responde: “Hello?”.
E a história termina. A resposta confirma pelo menos uma coisa: há alguém além dos Delgado - ou, no mínimo, existe um sinal vindo de algum lugar. A identidade da pessoa, porém, não é revelada!
E há um detalhe curioso: o próprio Louis Leterrier disse à Netflix que sabe quem está por trás da voz, mas não pretende entregar o segredo. O diretor apenas afirmou que se trata de alguém “muito, muito, muito icônico” e sustentou que o público talvez nunca saiba com certeza quem é. É mole!?
Provavelmente. O longa não estabelece quantas pessoas sobreviveram à catástrofe.
Leterrier afirmou que imagina que pessoas em locais mais altos, prédios e estruturas capazes de abrigar grupos possam ter resistido. Mas isso é uma interpretação do diretor, não uma contagem apresentada pelo roteiro. O importante para o desfecho é que os Delgado não necessariamente são os últimos seres humanos da Terra. A mensagem de rádio abre justamente essa possibilidade.