Chegar à aposentadoria deveria ser sinônimo de aproveitar melhor o tempo livre, realizar tudo o que ficou pendente e não foi possível fazer antes, realizar algum outro sonho, um capricho... mas, para algumas pessoas, aproveitar plenamente essa fase é complicado. “Há pessoas que não conseguem fazer a transição, mudar, quando chegam à aposentadoria”, explica o psicólogo clínico Arun Mansukhani em uma entrevista.
E é que esse problema se manifesta em vários níveis: tanto econômico quanto emocional, cultural e até mesmo geracional. A poupança se tornou um estilo de vida para uma geração que teve que aprender da maneira mais difícil, a geração do pós-guerra.
A incerteza sempre foi sua constante e, ao chegar à aposentadoria, continua sendo: quanto dinheiro vou precisar para viver?, o custo de vida vai diminuir?...
A época em que vivemos traz muito mais sobressaltos do que antes, e isso gera muita insegurança, sobretudo entre os mais idosos. As notícias sobre inflação, conflitos internacionais, crises econômicas ou problemas de sustentabilidade alimentam essa sensação de ameaça permanente, e o resultado é que muitos idosos optam por reforçar ainda mais seus hábitos de poupança.
“Possivelmente, são as que menos toleram a incerteza em geral. São pessoas que sentem mais satisfação em economizar do que em gastar. Porque o fato de não gastar, em geral, diminui o medo e a ansiedade, lhes dá tranquilidade e reduz a incerteza. É uma emoção positiva, mas elas não aproveitam”, diz o especialista.
Além disso, é preciso levar em conta que a chegada da aposentadoria também representa uma mudança vital, ou seja, desconcerto e uma sensação de perda de identidade, como também explica muito bem a psicóloga Ana Galán em uma entrevista. Pois, segundo a especialista, o trabalho não apenas proporciona dinheiro — o que é muito importante —, mas também nos dá uma estrutura e um planejamento para nossa vida, além de um papel social que nos ajuda a nos sentirmos valorizados.
Aqueles que hoje têm mais de 65 anos cresceram em um contexto muito diferente do nosso: “eram gerações que não foram educadas para o lazer, devido à austeridade aprendida após a guerra; o consumismo dos anos 80 os pegou tarde demais para que pudessem mudar seus hábitos”, explica Mansukhani.
Para eles, economizar é uma virtude e gastar era algo que só deveria ser feito com muita moderação; e mesmo quando gastam algo para si mesmos, sentem-se culpados por isso. Segundo Mansukhani, o hábito de acumular pode se tornar uma dinâmica difícil de abandonar: “Acumular pode gerar um padrão viciante”.
Mas, então, é possível aprender a aproveitar a vida? Preparar-se melhor para a aposentadoria, não tanto no aspecto financeiro, mas do ponto de vista do prazer, é o que recomenda o psicólogo. Para isso, ele considera necessário desenvolver ferramentas que ajudem os idosos a administrar o tempo livre, o lazer e as mudanças emocionais associadas à aposentadoria.
“Seria preciso criar algum tipo de estrutura para oferecer aos idosos educação para o lazer, tanto psicológica quanto financeira, seja em grupos ou por meio de atendimento individual para pessoas em situações mais complicadas.”
Porque se aposentar não consiste apenas em deixar de trabalhar, mas também implica uma nova etapa na qual é preciso aprender a se relacionar de outra maneira com o dinheiro e aproveitar o tempo livre — algo que, para quem passou a vida inteira encontrando tranquilidade em não gastar, pode ser muito mais complexo do que parece.