Tem casal que chega aos 50, 60 ou 70 anos com uma história inteira construída a dois: filhos criados, viagens, contas divididas, conquistas, crises superadas e uma rotina que parece funcionar no automático. O problema é quando, no meio de tudo isso, uma coisa vai ficando para depois: o desejo. Vish! E aí, minha gente!? Como fica a situação? É possível recuperar a química depois de tantos anos juntos?
Para a terapeuta tântrica Fernanda Zorzo, a resposta passa menos por procurar uma fórmula para "voltar a ser jovem" e mais por reaprender a estar presente com o próprio corpo e com o parceiro!
Fernanda ganhou destaque recentemente ao levar uma meditação tântrica para a Vila Equilibrivm, espaço de experiências de bem-estar ligado à Equilibrivm Tour de Anitta em Salvador. A programação reuniu práticas como meditação, yoga, respiração e massagens. A profissional também participou do Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana com uma apresentação sobre Tantra e práticas somáticas.
Em entrevista exclusiva ao Purepeople Brasil, ela explica que a perda ou diminuição do desejo não pode ser colocada simplesmente na conta da idade. “Essa queixa, na verdade, não tem idade. Para alguns casais ela aparece depois dos filhos; para outros, quando aquela paixão inicial esfria; e há aqueles que conseguem manter uma vida íntima muito viva até a terceira idade", disse.
Mas existe um detalhe que pode fazer toda a diferença: o desejo também precisa ser alimentado. “Quanto menos pensamos sobre prazer, exploramos e vivenciamos determinadas experiências, menos sentimos a falta delas. O desejo também precisa ser cultivado". E como começar?
Parece simples demais. Justamente por isso pode passar despercebido. Depois de muitos anos juntos, o casal pode conhecer cada hábito do outro e, ao mesmo tempo, parar de prestar atenção nele de verdade. A rotina facilita a convivência, mas também pode transformar a relação em uma sequência de tarefas.
Fernanda aponta a vulnerabilidade como um dos pontos que podem criar distância. “Quando deixamos de mostrar o que sentimos, desejamos ou precisamos por medo de sermos julgados ou rejeitados, vamos criando distância. E comunicação não é apenas verbal. Nosso corpo fala muito antes de conseguirmos colocar determinadas coisas em palavras", explicou.
Por isso, a primeira atitude indicada por ela é quase um convite para interromper o piloto automático: "Olhem-se nos olhos. Profundamente. Às vezes, existe um silêncio cheio de acolhimento e afeto que diz muito mais do que qualquer conversa".
"Estamos juntos há 30 anos, eu já sei tudo sobre ele/ela". Será mesmo? Para Fernanda, um dos problemas dos relacionamentos longos é justamente a perda da curiosidade. O parceiro que um dia era uma descoberta pode virar alguém que acreditamos conhecer por completo.
"Também vejo casais que deixam de olhar verdadeiramente um para o outro, perdem a escuta ativa e esquecem a potência de um toque sem pressa, sem cobrança e sem uma expectativa imediata de chegar ao sexo", avaliou.bE existe uma consequência silenciosa: "Às vezes, o casal continua dividindo a vida, a casa e a rotina, mas deixa de realmente se encontrar".
A solução passa por voltar a perguntar, ouvir e descobrir.
"Segundo: escutem-se verdadeiramente. Leiam os sinais do outro, mas não tentem adivinhar tudo. Perguntem, conversem e tenham a humildade - e a felicidade - de uma criança que está sempre descobrindo alguma coisa nova", disse a especialista. “Podemos conhecer a nós mesmos e ao outro novamente, porque ambos mudaram ao longo dos anos", acrescentou.
Aqui entra uma mudança que pode parecer pequena, mas mexe diretamente com a forma como muitos casais entendem intimidade. Nem todo beijo precisa terminar em sexo. Nem todo abraço precisa ser uma preparação. Nem toda massagem precisa ter um "objetivo". O toque pode recuperar uma conexão que ficou esquecida...
"Terceiro: toquem-se com intenção. Nosso corpo é muito sábio e percebe quando existe desejo, carinho e presença naquele toque. E esse toque não precisa estar reservado apenas para o momento da relação sexual. Ele pode acompanhar todas as fases da relação", esclareceu Fernanda.
O Tantra, segundo ela, trabalha justamente essa desaceleração. "O Tantra traz novas possibilidades de encontro de uma forma mais consciente e menos performática. Ele convida o casal a desacelerar, voltar para o corpo, perceber o outro e descobrir novas formas de intimidade", complementou.
Para quem está tentando recuperar o desejo, pode parecer estranho começar longe da cama. Mas essa é uma das ideias centrais apresentadas por Fernanda. "O desejo não precisa começar na relação sexual. Ele pode começar muito antes, na forma como nos relacionamos com nosso próprio corpo e com a presença do outro", contou.
Respiração, olhar, movimento e toque entram nesse processo. "Muitas vezes precisamos reaprender justamente o básico: sentir, receber, respirar, olhar, tocar e ser tocado. O prazer não precisa ser uma sequência de técnicas para chegar rapidamente a um determinado resultado", disse ela.
Existe ainda outro obstáculo: a maneira como homens e mulheres passam a enxergar o próprio corpo com o envelhecimento. “Envelhecer é uma consequência de estar vivo. Então, em vez de travarmos uma guerra contra as marcas do tempo, podemos aprender a honrá-las - cada marca carrega uma parte da nossa história", provocou.
Para ela, o corpo não precisa ser tratado como algo que perdeu valor porque mudou: "O Tantra propõe justamente uma relação mais amorosa e consciente com o corpo, baseada menos em julgamento e mais em presença".
Até a massagem tântrica, muitas vezes associada apenas ao sexo, pode ter outro papel. "Ela pode ser uma experiência de relaxamento, presença, percepção e reconexão com tudo aquilo que o corpo ainda pode sentir e receber. É muito bonito quando o corpo deixa de ser algo que precisamos esconder ou corrigir e volta a ser um lugar onde queremos estar", expressou.
Outro ponto levantado por Fernanda pode atingir justamente quem transforma a própria vida sexual em uma cobrança: a performance. "O Tantra trabalha muito justamente essas duas questões: o piloto automático e a performance".
Depois de anos juntos, existe ainda a tentação de acreditar que o casal já descobriu todos os caminhos possíveis para o prazer.
Fernanda propõe fazer exatamente o contrário: "Até quando você acha que já conhece os pontos mais rápidos e fáceis do outro, existe algo muito mais potente em se aproximar com a humildade de quem está sempre aprendendo. Explorar o outro com curiosidade, diversão e presença pode ser muito mais prazeroso do que tentar 'performar bem'".
A terapeuta não promete que o prazer será automaticamente melhor com a idade. Mas identifica uma possível vantagem da maturidade: a liberdade.
"Não porque exista uma idade em que o prazer seja automaticamente melhor, mas porque a maturidade pode trazer algo muito valioso: liberdade. Quando a maturidade é bem vivida, podemos nos libertar de parte dessas expectativas e nos permitir estar mais presentes, mais conscientes e mais conectados com aquilo que realmente queremos", refletiu.
E, para ela, essa presença muda a experiência: "Quanto mais conseguimos estar inteiros na experiência, maior pode ser a nossa capacidade de vivê-la profundamente".
Fernanda chama atenção para uma ideia que pode limitar o prazer em qualquer idade: a de que sexo precisa necessariamente significar penetração: "Um dos maiores é o falocentrismo e a ideia de que o prazer sexual depende necessariamente da penetração. Quando ampliamos esse repertório, percebemos que existem muitas outras formas de sentir prazer, intimidade e conexão".
A proposta, novamente, não é substituir uma obrigação por outra, mas aumentar as possibilidades: "Mais presença, mais curiosidade e mais possibilidades de sentir".
Parar de procurar um segredo! Fernanda explicou que o casal precisa voltar a olhar, ouvir e tocar, sem transformar cada encontro em uma prova de desempenho. Ela também faz um alerta para quem fica contando quantas vezes por semana o casal transa: "Eu diria, inclusive, para não colocarem tanta pressão na quantidade. Prestem muito mais atenção à qualidade, à presença e à conexão".
"Às vezes, um encontro verdadeiramente presente vale muito mais do que cumprir uma frequência. Depois de muitos anos juntos, existe uma potência enorme em descobrir que a intimidade não precisa ficar menor porque o tempo passou. Pelo contrário: ela pode ganhar novas camadas", concluiu.