Nem sempre uma criança triste vai chorar, demonstrar preocupação ou admitir que alguma coisa está errada. Em determinadas situações, o sofrimento emocional pode aparecer de outra maneira: na irritação, no afastamento dos familiares ou em atitudes que os adultos interpretam como desobediência. Entender esses sinais, portanto, pode ser um passo importante para melhorar a comunicação entre pais e filhos.
O neuropsicólogo infantil Álvaro Bilbao chamou a atenção para essa questão em um vídeo divulgado nas redes sociais, no qual compartilhou orientações para ajudar as crianças a expressar o que sentem. O especialista, conhecido por abordar temas relacionados à criação dos filhos e à educação emocional, destaca que os pequenos nem sempre conseguem identificar as próprias emoções ou encontrar palavras para explicar o que estão vivendo.
“Quando estão tristes, não vão demonstrar tristeza nem preocupação, mas vão se mostrar irritados, distantes ou apresentar comportamentos que consideramos inadequados”, explica Bilbao, em declaração reproduzida pelo jornal espanhol El Confidencial.
Para facilitar esse diálogo, Bilbao apresenta quatro recomendações que podem ser incorporadas à rotina familiar. A proposta é criar um ambiente no qual as crianças se sintam seguras para falar sobre suas emoções, sem medo de serem repreendidas ou incompreendidas.
O primeiro passo é prestar atenção à maneira como a criança age. Se ela estiver mais irritada do que o habitual ou começar a se afastar dos familiares, os pais podem tentar entender o que está acontecendo antes de corrigir a atitude. O comportamento, segundo a orientação do especialista, pode ser uma forma de demonstrar um desconforto que ainda não consegue ser colocado em palavras.
Em vez de pressionar os filhos a dar explicações, os adultos podem iniciar uma conversa de maneira natural e acolhedora. Bilbao sugere uma abordagem simples: dizer que percebeu uma mudança de comportamento e perguntar se há algo que possa fazer para ajudar.
Também é importante respeitar o tempo da criança. Ela não precisa falar imediatamente sobre o que a incomoda, desde que saiba que pode procurar os pais quando estiver pronta.
Contar situações vividas pelos adultos quando eram crianças também pode ajudar. Ao explicar que já sentiram raiva, frustração ou tristeza em circunstâncias semelhantes, os pais mostram aos filhos que essas emoções fazem parte das experiências humanas.
A iniciativa pode facilitar a identificação dos sentimentos e ajudar os pequenos a perceber que não são os únicos a passar por determinadas situações.
A quarta orientação é validar aquilo que a criança sente, mesmo quando os pais não compreendem de imediato sua reação. De acordo com Bilbao, o medo de ser julgado ou de se sentir sozinho ao expressar as próprias emoções pode fazer com que muitos filhos evitem contar aos adultos o que estão vivendo.
Por isso, demonstrar disponibilidade para ouvir é fundamental. A criança precisa perceber que pode falar sobre suas preocupações sem receio de que seus sentimentos sejam tratados com desprezo ou incompreensão.
O objetivo não é ignorar comportamentos inadequados, mas evitar que a tentativa de corrigi-los impeça os adultos de perceber o que a criança está tentando comunicar.
A dificuldade de expressar sentimentos pode tornar a comunicação entre pais e filhos um desafio, especialmente quando os adultos esperam que as crianças expliquem com clareza o que está acontecendo. A orientação de Álvaro Bilbao é olhar para além das reações mais visíveis e considerar que nem sempre o comportamento revela, de maneira direta, o que os pequenos estão sentindo.
Ao observar mudanças de atitude, abrir espaço para conversas e respeitar o tempo dos filhos, os pais podem favorecer uma relação de confiança. Afinal, aprender a reconhecer e comunicar as próprias emoções é um processo que exige tempo, compreensão e apoio dos adultos.