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Peter Gray, psicólogo, aponta: se você nasceu entre 1960 e 1970, faz parte da última geração que viveu uma infância feliz; 'Acredito que as crianças de hoje são menos livres do que jamais foram', diz especialista
Publicado em 15 de outubro de 2026 às 10:11
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Brincar sem telas e a necessidade de ajudar em casa moldaram o caráter daqueles que nasceram naquela década.
Existe uma diferença real e mensurável entre crescer em um contexto e crescer em outro, e especialistas vêm estudando isso há décadas sob a perspectiva da psicologia do desenvolvimento. O psicólogo Peter Gray, professor do Boston College, dedicou mais de trinta anos à pesquisa sobre o papel do brincar livre no desenvolvimento infantil. Gray identifica a geração nascida entre 1960 e 1970 como o último grupo a ter desfrutado, de forma geral, desse tipo de infância, com horas passadas ao ar livre, sem horários rígidos e com a liberdade de resolver seus próprios conflitos. Quem nasceu naquela década cresceu sem celulares, redes sociais ou qualquer coisa que se assemelhasse a entretenimento constante e acessível. De acordo com sua pesquisa, é nesses momentos que as crianças aprendem a tomar suas próprias decisões, a lidar com a frustração quando as coisas não saem como planejado e a construir uma autoconfiança que as acompanha por toda a vida.

Quase todos, ao pensarem na infância, recordam uma versão editada e quase idílica daqueles anos. Nessa visão bucólica da infância, as tardes passadas ao ar livre se estendem, os verões duram meses e até as broncas dos pais se reduzem a uma anedota trivial. Isso não é coincidência, já que a memória tende a suavizar o desconfortável e preservar aquilo que nos reconcilia com a nossa própria história.

Em última análise, esses são fragmentos de momentos felizes que guardamos daqueles anos em que morávamos com nossos pais, não havia preocupações e as férias pareciam intermináveis. Mas essa nostalgia seletiva não significa que todas as infâncias foram iguais, nem que a felicidade daquela época dependa exclusivamente de como a lembramos agora. 

Existe uma diferença real e mensurável entre crescer em um contexto e crescer em outro, e especialistas vêm estudando isso há décadas sob a perspectiva da psicologia do desenvolvimento.

O que diz a pesquisa de Peter Gray

O psicólogo Peter Gray, professor do Boston College, dedicou mais de trinta anos à pesquisa sobre o papel do brincar livre no desenvolvimento infantil.

Em seu estudo "O Declínio do Brincar e o Aumento da Psicopatologia em Crianças e Adolescentes", publicado no American Journal of Play, ele documenta como o brincar sem supervisão diminuiu drasticamente nos últimos cinquenta anos nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos, e como esse declínio coincide com um aumento contínuo da ansiedade, depressão e sentimentos de impotência entre crianças e adolescentes.

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Gray identifica a geração nascida entre 1960 e 1970 como o último grupo a ter desfrutado, de forma geral, desse tipo de infância, com horas passadas ao ar livre, sem horários rígidos e com a liberdade de resolver seus próprios conflitos. 

Ele próprio cresceu nessa época e, em uma entrevista à rádio pública KUOW, chegou a afirmar que "as crianças de hoje são menos livres do que jamais foram na história da humanidade", com a única exceção dos períodos de escravidão infantil ou trabalho forçado. “É justo dizer que nossa sociedade está abusando psicologicamente das crianças neste momento devido à forma como restringimos sua liberdade.”

Uma infância sem telas e com muito mais liberdade

Quem nasceu naquela década cresceu sem celulares, redes sociais ou qualquer coisa que se assemelhasse a entretenimento constante e acessível. Saíam de casa depois do almoço e só voltavam ao anoitecer, deixando horas de brincadeiras sem nenhuma organização ou supervisão.

Para Gray, esse tempo sem adultos por perto não foi tempo perdido. De acordo com sua pesquisa, é nesses momentos que as crianças aprendem a tomar suas próprias decisões, a lidar com a frustração quando as coisas não saem como planejado e a construir uma autoconfiança que as acompanha por toda a vida.

Pequenas responsabilidades, grande personalidade

As tarefas domésticas também desempenharam um papel significativo nesse contexto. Ao contrário de hoje, em que as crianças têm poucas responsabilidades, aquelas nascidas no século XX, e particularmente na década estudada por esse psicólogo, cuidavam constantemente de um irmão mais novo ou ajudavam em casa. 

Essas tarefas ajudavam a fomentar um senso de responsabilidade e ensinavam-lhes que a vida não se resumia a brincar. Além disso, incutiam nas crianças daquela época a compreensão de que suas decisões tinham consequências reais para o seu entorno.

Em psicologia, isso tem um nome: locus de controle interno. Refere-se à crença de que se pode influenciar o que acontece com a pessoa, em vez de se sentir à mercê das circunstâncias. Pessoas com um locus de controle interno mais desenvolvido tendem a demonstrar maior capacidade de lidar com dificuldades ao longo da vida.

Resolver conflitos cara a cara, sem possibilidade de fuga

O pesquisador também explica que as crianças muitas vezes tinham que resolver discussões ou problemas na escola sozinhas. Essa obrigação de assumir responsabilidades, embora desconfortável na época, é o que Gray acredita desenvolver habilidades para gerenciar as próprias emoções e compreender as dos outros — algo muito mais fácil de evitar hoje em dia, com os conflitos filtrados por mensagens e redes sociais.

A geração que aprendeu a resistir

Nada disso significa que aqueles nascidos entre 1960 e 1970 tiveram uma infância sem problemas. Houve dificuldades, situações familiares complicadas e, como em qualquer época, infâncias conturbadas. Gray não está falando de um paraíso perdido, mas de um ambiente que, com seus altos e baixos, oferecia algo raro hoje em dia: espaço para cometer erros sem ninguém observando.

Brincar sem supervisão, ficar entediado sem estímulos, assumir pequenas responsabilidades e resolver os próprios problemas foram, segundo essa interpretação, os ingredientes de uma geração que aprendeu a se virar sozinha antes que alguém lhes ensinasse como.

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Por Giovanna Ribeiro | Colaboradora
Jornalista pela UFF. Adora conversar com estranhos na rua. Apaixonada por arte, cultura, cinema e gente.
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