Martha Nussbaum, filósofa: 'As emoções não são impulsos cegos, mas julgamentos inteligentes sobre o valor das coisas'
Publicado em 19 de maio de 2026 às 12:00
Por Clara Espíndola | Colaborador
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
A americana não foge das emoções nem tenta controlá-las como os estoicos. Ela vê nelas uma ferramenta para nos conhecermos
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Ela ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais em 2012. É uma das filósofas morais mais influentes do mundo e seu pensamento vai contra algo que agora está na moda: o estoicismo

Refiro-me à norte-americana Martha Nussbaum, uma pensadora que valoriza as emoções e não acredita, como os estoicos, que estejamos presos a elas, mas sim que elas nos moldam e nos ajudam a viver.

Partamos de uma premissa simples: as emoções não são nem boas nem más. Todas são válidas e não deveriam ter um valor moral de bom ou mau. O que sim tem um valor moral de bom ou mau são as decisões que tomamos com base numa emoção. 

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Essa ideia defendida por Nussbaum rompe, de forma quase poética, com a visão tradicional que coloca a razão e a emoção como duas forças em constante conflito e, acima de tudo, rompe com a ideia de que sentir raiva, ira e tristeza é algo ruim e a ser evitado. Como explicava a psicóloga Iria Reguera, não podemos evitar sentir emoções negativas, assim como não podemos evitar a alegria ou a diversão quando elas surgem.

Em “Paisagens do pensamento”, Nussbaum escreveu que “as emoções não são impulsos cegos, mas julgamentos inteligentes sobre o valor das coisas; são a forma como nos abrimos à vulnerabilidade e ao mundo”. 

Elas são valiosas para nós porque nos permitem, com base nelas, formar um julgamento. Por exemplo, a raiva pode indicar que algo nos parece injusto. Elas também nos dão uma informação sobre o que podemos precisar em um determinado momento. Por exemplo, o medo nos coloca em alerta diante de um perigo.

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Nossas emoções também pensam

O que Nussbaum defende, de certa forma, é que sentir não é o oposto de pensar, porque uma emoção também pensa: ela avalia, interpreta e valoriza aquilo que consideramos importante para nossa vida. 

Nessa linha, a emoção nunca é um obstáculo para a razão, como defendiam os estoicos. Não devemos reprimi-las nem controlá-las, mas sim educá-las, examiná-las e distinguir quais ampliam nossa humanidade e quais a empobrecem. 

“A fragilidade não é uma falha do sistema. É o preço de uma vida que realmente importa”, explicava em ‘A fragilidade da bondade’, porque a vulnerabilidade e a compaixão ampliam nossa própria humanidade. 

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“Não menospreze o seu mundo interior. Esse é o primeiro e mais geral conselho que eu lhe daria”, afirmava no livro ‘Sem fins lucrativos’. “Nossa sociedade é muito voltada para o exterior, muito absorta no último objeto da moda, na última fofoca, na última oportunidade de autoafirmação e status. Mas todos nós começamos nossas vidas como bebês indefesos, dependentes dos outros para o conforto, a alimentação e a própria sobrevivência”, explicava. 

E essa necessidade não desaparece, especialmente se pensarmos que as pessoas com melhores relacionamentos vivem mais, são mais felizes e têm melhor saúde, segundo Harvard.

À medida que crescemos, desenvolvemos uma ampla gama de emoções; por isso, Nussbaum afirma que “os seres humanos experimentam as emoções de formas moldadas tanto por sua história individual quanto pelas normas sociais”, ou seja, não são emoções simplesmente por si só. 

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Elas dependem de nossa própria experiência e do que vivemos no passado, mas também de nossos valores e de como percebemos o futuro. Elas vêm de nossos medos, de nossos anseios e da própria vida. Por isso é tão importante saber reconhecer e identificar o que sentimos, essas emoções, e usar o que na psicologia é conhecido como consciência emocional.

Nussbaum afirma que “nossa vida emocional traça um mapa de nossa incompletude: um ser sem necessidades nunca teria motivos para sentir medo, dor, esperança ou raiva”, mas essa é também a razão pela qual “muitas vezes nos envergonhamos de nossas emoções e das relações de necessidade e dependência a elas ligadas”. 

Sentir não deveria ser um ato de fuga, muito pelo contrário. “As pessoas fogem de seu mundo interior de sentimentos e do domínio articulado de suas próprias experiências emocionais [...] porque não sabem como lidar com suas próprias emoções, nem como comunicá-las aos outros”. 

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É hora de fazer um exercício de autoconhecimento que comece por identificar tudo o que sentimos e deixar de ter medo desse nosso mundo interior. 

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