Martha Nussbaum nasceu em Nova York em 1947 e lecionou em universidades como Harvard, Brown e a Universidade de Chicago. Em 2012, ela ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais, e seus estudos parecem cada vez mais relevantes para entendermos nosso tempo. Comecemos com esta citação: "Para ser uma boa pessoa, confie nas coisas incertas que estão além do seu controle."
Em seu livro "A Fragilidade da Bondade", a filósofa discute vulnerabilidade, relacionamentos e a natureza essencial de aceitar os riscos inerentes à vida se realmente desejamos uma vida boa e sermos boas pessoas. Em um dos primeiros capítulos do livro, ela desmonta a noção de que uma vida boa é aquela em que nossas emoções estão sob controle.
Isso contrasta com o estoicismo de autores como Epicteto, que argumentava que uma vida boa depende unicamente de você e da sua vida interior, e que tudo o que é externo deveria ser irrelevante. Nussbaum sustenta que, embora eles não estejam totalmente errados, é completamente irrealista pensar que fatores externos não nos afetam simplesmente porque as emoções são incontroláveis. Ao remover a vulnerabilidade da equação da vida, tudo o que conseguimos é torná-la insípida e empobrecida.
Ser um bom ser humano é ter uma certa abertura para o mundo, uma capacidade de confiar em coisas incertas que estão além do seu controle, o que pode levar à devastação em circunstâncias extremas pelas quais você não é responsável.
Isso diz algo muito importante sobre a condição da vida ética: que ela se baseia na confiança no incerto e na disposição de se expor; baseia-se em ser mais como uma planta do que uma joia, algo bastante frágil, mas cuja beleza particular é inseparável dessa fragilidade.
Nussbaum explica que uma boa vida implica, de certa forma, uma certa dependência, pois, como seres humanos, não somos autossuficientes nem podemos ser 100% independentes. Parafraseando o texto, poderíamos dizer que “a fragilidade não é uma falha do sistema. É o preço de uma vida que realmente importa”, porque não há beleza sem risco. A coisa mais valiosa em sua vida é também aquilo que pode destruí-lo.
Se considerarmos o que Harvard afirma ser a chave da felicidade, os relacionamentos, podemos perceber que conquistá-los exige conexão com os outros, e isso envolve vulnerabilidade. Toda vez que você ama, pode perder. Toda vez que você confia, pode ser traído. Toda vez que você se conecta, pode sofrer. Mas isso não é um erro a ser evitado; pelo contrário, faz parte da vida. Da boa vida, segundo Nussbaum.
“As coisas que nos tornam mais vulneráveis são as que mais importam para nós”, afirmou ela em outro de seus livros, “Paisagens do Pensamento”, no qual explora como as emoções se tornam respostas que nos ajudam a distinguir o que é valioso e importante do que não é.
A renomada psicóloga Brené Brown afirma que o verdadeiro sentimento de pertencimento e conexão não surge quando aparentamos força, mas sim quando demonstramos que precisamos dos outros — ou seja, quando somos vulneráveis. Essa teoria psicológica é muito semelhante à que Nussbaum apresentou em um nível filosófico. Para ela, viver bem não significa se proteger do dano, mas sim aceitar o risco de ser ferido.
Você pode fazer tudo certo na vida e com as pessoas ao seu redor e ainda assim sofrer profundamente, porque aquilo que está além do nosso controle também nos afeta. E não se pode ter relacionamentos profundos sem correr riscos emocionais.
"Amar é reconhecer nossa própria necessidade e vulnerabilidade", afirmou a filósofa. E não vale a pena desistir disso, mesmo que haja o risco de se machucar, porque, como ela explicou em uma entrevista à revista Time, "existem muitos tipos de amor, e nunca podemos ter amor demais".
“Devemos mostrar nossa vulnerabilidade. Precisamos dos outros”, afirma ela, porque, segundo sua filosofia, quanto mais plena a vida, mais vulnerável a pessoa se torna. Para Nussbaum, uma vida autêntica é como uma planta que precisa de cuidados externos e pode ser danificada. Mas é justamente nessa fragilidade que reside sua verdadeira beleza.