Frase do dia de Martha Nussbaum, filósofa: 'Se você foi traído, é mais fácil causar dano do que construir uma vida'
Publicado em 1 de julho de 2026 às 09:40
Por Clara Espíndola | Colaboradora | TV, beleza e famosos
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
Embora seja o caminho mais fácil, também é o pior. Gastamos energia demais com quem não merece, em vez de nos concentrarmos em nossa felicidade
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Viver uma traição em primeira pessoa, na própria pele, é uma experiência emocional avassaladora. O que nasce dessa raiva e dessa ira pela traição em si te coloca no meio de uma bifurcação e te obriga a tomar um caminho. Escolher o primeiro é algo que nasce das entranhas. O corpo te pede para revidar. O segundo é continuar construindo algo depois que alguém destruiu a confiança que você havia depositado nele.

A filósofa Martha Nussbaum, uma das filósofas morais mais influentes da atualidade, escreveu o livro “A ira e o perdão. Ressentimento, generosidade, justiça”, fundindo filosofia e emoções. E se tivéssemos que resumir o seu pensamento em uma paráfrase, seria que “se você foi traído, é mais fácil causar dano do que construir uma vida”. 

Causar dano sempre será o caminho mais simples quando se é traído, e a vingança parece tentadora, mas também é uma armadilha.

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A armadilha da vingança

Para entender profundamente o que Nussbaum quer dizer, primeiro temos que entender por que a traição dói tanto. A intensidade dessa dor tem uma explicação muito simples: só podemos trair quem confia. Em termos psicológicos, a traição não é apenas uma ação. 

É a ruptura de um pacto de confiança que sustenta uma relação. "Somos vulneráveis de maneiras importantes porque amamos os outros e confiamos neles. A vulnerabilidade costuma causar aflição, e também uma grande ira", explica Nussbaum em seu livro. Por isso, a traição dói mais quanto mais próxima está a pessoa que a comete.

Sentir tudo isso não é apenas normal, mas também esperado e, até certo ponto, útil. Todas as emoções que sentimos não são o problema, mas sim o que fazemos com elas depois. E se essa traição desperta emoções incômodas e decidimos nos vingar, estamos caindo em uma armadilha.

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Qualquer pessoa que já tenha passado por um término ou por uma facada nas costas entende que, quando alguém nos machuca, a mente tende a seguir pelo que Nussbaum chama de "a rota do payback" (da retaliação) — a crença, enraizada embora irracional, de que fazer o outro sofrer repara de algum modo o que nos foi tirado; ou pela "rota do status" — humilhar quem nos feriu para sentir que recuperamos a dignidade que acreditamos ter perdido.

Ela chama esse argumento de o caminho da vingança, mas, segundo Nussbaum, trata-se de uma ilusão. "Mesmo que as pessoas sintam um prazer avassalador quando se vingam do agressor, esse prazer não lhes dá nenhuma razão para endossar [...] tais preferências", escreve. 

E acrescenta que "é provável que o projeto de vingança coloque em jogo a felicidade futura em vez de promovê-la". Ou seja, vingar-se não resolve nada e te rouba o tempo e a energia que você poderia estar investindo em si mesmo.

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A ciência já confirmou que pensar em vingança não fecha a ferida. As evidências sugerem que a vingança pode dar uma breve sensação de alívio, mas não costuma melhorar o bem-estar emocional de forma duradoura, podendo manter a ativação da ira e da ruminação mental.

A alternativa: uma ira focada em avançar

Nussbaum não pede para reprimir a raiva nem a ira, muito menos para fingir que nada aconteceu. Na verdade, ela entende que "as emoções não são impulsos cegos, mas julgamentos inteligentes sobre o valor das coisas". 

Sentir ira diante de uma traição é correto porque algo importante para você foi danificado, mas ela propõe o que chama de "ira de transição": reconhecer a raiva, validá-la e, depois, redirecioná-la para o futuro, em vez de apontá-la para o causador do dano.

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"Ao reconhecer honestamente as ações negativas que ocorreram, as pessoas deveriam se focar no bem-estar dos outros e na criação de um futuro. A ira não ajuda nessa tarefa", afirma. Não se trata de não sentir, mas de não permanecer ali. 

A energia gerada pelo dano se transforma em combustível para reconstruir algo, em vez de munição para destruir o outro. Embora seja mais fácil se vingar, é muito melhor para você focar toda essa ira em virar a página e construir algo bonito das cinzas que alguém te deixou.

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