Antes de conquistar o público com “A Cor Púrpura”, Alice Walker já escrevia sobre a vida no sul dos Estados Unidos, onde nasceu em 1944, no estado da Geórgia.
Romancista, poetisa e ensaísta, ela participou do movimento pelos direitos civis e colocou no centro de sua obra as experiências de mulheres negras, com espaço para seus afetos, suas ambições e suas formas de resistir à violência.
Em “A Cor Púrpura”, publicado em 1982, essa perspectiva ganha forma nas cartas de Celie, uma mulher negra que encontra na escrita uma maneira de contar a própria história.
O livro fez de Walker a primeira mulher negra a ganhar o Pulitzer de Ficção, em 1983, e chegou ao cinema dois anos depois, em uma adaptação dirigida por Steven Spielberg.
A ideia de tomar a palavra e decidir como contar a própria vida também aparece em sua poesia. Quase uma década antes do romance, Walker abriu um de seus poemas com estes versos, aqui em tradução livre.
“Não seja a favorita de ninguém, seja uma pessoa à margem. Aceite as contradições da sua vida e envolva-se nelas como se fossem um xale”
Veja + após o anúncio
O trecho abre “Be Nobody’s Darling”, poema publicado em 1973 na coletânea Revolutionary Petunias & Other Poems. Era o segundo livro de poesia de Walker, escrito no contexto de uma trajetória já marcada pelo ativismo.
Em vários poemas da coletânea, a autora volta ao sul dos Estados Unidos para revisitar o mundo em que cresceu.
A imagem do xale fica mais clara nos versos seguintes. Ali, ele serve para aparar pedras e manter o corpo aquecido. O contraste dá força à passagem. As contradições que poderiam deixar alguém mais exposto ao julgamento são justamente o tecido com que essa pessoa se protege.
Mais adiante, o poema imagina um encontro entre pessoas à margem. Há espaço, portanto, para encontrar companhia mesmo quando se abre mão de agradar a quem dita as regras do grupo.
No cotidiano, o desejo de continuar sendo a “favorita” pode aparecer em situações pequenas. Pense em quem sempre assume a tarefa de organizar os encontros de família.
A pessoa pode gostar de reunir todo mundo e, ainda assim, querer passar um domingo sem cuidar de nada. Admitir as duas coisas permite pedir ajuda antes que um gesto de carinho vire uma obrigação silenciosa.
A mesma reflexão vale para uma opinião que já defendemos com convicção. Quando uma conversa ou uma experiência muda nossa maneira de pensar, pode ser tentador repetir o que sempre dissemos só para evitar o estranhamento de quem nos conhece.
Dizer “eu pensava assim, mas hoje vejo de outro jeito” permite reconhecer o que mudou sem apagar a história que nos trouxe até ali. Na imagem de Walker, é justamente essa história, com suas dobras, que dá forma ao xale.