Há exatamente 10 anos, a Globo estreava 'Sol Nascente' no horário das seis. Exibida entre 29 de agosto de 2016 e 21 de março de 2017, a novela rapidamente se tornou um exemplo de escolhas que não se deve repetir.
De lá para cá, a televisão mudou, e muito. — e acom certeza essa experiência fez com que a Globo aprendesse que determinados assuntos exigem trÊs palavras importantes: respeito, representatividade e, principalmente, compreensão de que o telespectador não é ingênuo.
O primeiro grande problema de 'Sol Nascente' estava justamente na escalação. Giovanna Antonelli foi escolhida para interpretar Alice, uma descendente de japoneses. O papel, inicialmente, havia sido destinado a Dani Suzuki, atriz de ascendência japonesa que faria sua primeira protagonista na emissora.
A decisão de substituir uma atriz oriental por uma estrela de maior força comercial provocou críticas e abriu um debate sobre o espaço destinado a artistas asiáticos na televisão.
A questão ganhou ainda mais peso porque a novela pretendia abordar a imigração japonesa e aspectos daquela cultura.
A escolha de atores que não tinham ascendência oriental para personagens centrais acabou sendo vista como um exemplo de apagamento cultural e falta de oportunidades para artistas que poderiam representar aquela história a partir da própria vivência.
Afinal, não tinha como comprar a ideia de Giovanna Antonelli e Luis Melo - ator que vivia o o pai adotivo de Alice - como orientais.
E não para por aí! Outro 'sol' também foi motivo de chacota. Em 'Segundo Sol', de 2018, a Globo repetiu erro semelhante. A trama, ambientada na Bahia e explorar fortemente a identidade baiana, tinha como elenco principal marcado majoritariamente por atores brancos. Curiosamente, Giovanna Antonelli estava nessa novela.
O folhetim foi altamente criticado pela pouca diversidade racial. Era difícil falar de uma região tão marcada pela presença negra sem que essa realidade estivesse refletida de maneira proporcional na tela.
Mas os erros também serviram como aprendizado. Nos anos seguintes, especialmente depois da pandemia, a discussão sobre representatividade ganhou ainda mais força.
A Globo passou a investir com mais frequência em protagonistas negros e, principalmente, começou a ampliar as possibilidades desses personagens. Eles não precisavam mais estar presos ao estereótipo de empregados ou personagens secundários.
Um exemplo está na atual novela das sete, 'Por Você', que tem Sheron Menezzes interpretando Bela, uma médica. A personagem ocupa um lugar de protagonismo e exerce uma profissão de destaque, sem que sua trajetória seja reduzida à questão racial.
A mudança também pode ser percebida na representação asiática. 'Volta por Cima', exibida entre 2024 e 2025, trouxe a cultura sul-coreana para o centro da narrativa de maneira mais contemporânea, dialogando com a febre dos K-dramas e do K-pop.
A cultura oriental apareceu sem depender daqueles velhos estereótipos de personagens que falam português de maneira caricata ou vivem permanentemente como estrangeiros dentro do próprio Brasil.
O mesmo movimento pode ser observado quando o assunto é Nordeste. 'Mar do Sertão', de 2022, reuniu dezenas de atores nordestinos diante das câmeras, ajudando a preservar sotaques e referências culturais.
Mais recentemente, 'Guerreiros do Sol', do Globoplay, também apostou fortemente em artistas nascidos na região para construir uma representação mais autêntica.
É claro que a Globo ainda erra — e provavelmente continuará errando, mas 'Sol Nascente' funciona como um verdadeiro case de transformação.
Dez anos depois, fica evidente que a televisão aprendeu que representatividade não é apenas colocar determinado personagem em cena. É permitir que diferentes grupos contem suas próprias histórias, ocupem diferentes profissões e sejam retratados com complexidade.