Há situações em que ficar em silêncio parece a maneira mais fácil de evitar um conflito. Diante de uma ofensa, de uma atitude discriminatória ou de alguém sendo humilhado, muitas pessoas preferem não se envolver. Mas será que não tomar partido significa, necessariamente, ser imparcial?
Uma frase amplamente atribuída a Desmond Tutu, arcebispo sul-africano e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, propõe uma reflexão sobre o assunto: “Se você é neutro diante de uma injustiça, escolheu o lado do opressor”. E isso também vale para a política, viu? O segundo turno acontece no próximo domingo (26) e o nosso destino está em nossas próprias mãos. Vamos usá-las com sabedoria!
Nascido em 7 de outubro de 1931, em Klerksdorp, na África do Sul, Desmond se tornou uma das principais vozes contra o apartheid, sistema de segregação racial institucionalizada que submetia a população negra a leis discriminatórias e restringia seus direitos políticos e sociais. Antes de seguir a carreira religiosa, trabalhou como professor. Posteriormente, estudou teologia e foi ordenado sacerdote anglicano em 1960.
Sua atuação pública ganhou força durante a década de 1970. Em 1975, foi nomeado deão da Catedral de Santa Maria, em Joanesburgo, tornando-se o primeiro homem negro a ocupar o cargo. Três anos depois, assumiu a secretaria-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas, posição que utilizou para mobilizar setores religiosos contra o regime segregacionista.
Tutu defendia a resistência não violenta, mas também cobrava medidas concretas da comunidade internacional, incluindo sanções econômicas contra o governo sul-africano.
Em 1984, recebeu o Nobel da Paz por sua atuação na luta não violenta contra o apartheid. O reconhecimento internacional consolidou sua posição como uma das principais lideranças morais da resistência ao regime racista, ao lado de figuras como Nelson Mandela. Para Tutu, a defesa da paz não significava aceitar passivamente a opressão: era necessário enfrentar as estruturas que produziam desigualdade e violência.
Com o fim do apartheid e o início da transição democrática, o religioso assumiu outra função importante. Em 1996, foi nomeado por Mandela para presidir a Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, responsável por investigar graves violações de direitos humanos cometidas durante o regime. O órgão ouviu vítimas e responsáveis, buscando esclarecer os crimes do passado e contribuir para a reconstrução do país. Tutu defendia que a reconciliação dependia do reconhecimento das violências cometidas e da possibilidade de as vítimas serem ouvidas.
A reflexão encontra pontos de contato com pesquisas contemporâneas da psicologia social, que investigam por que algumas pessoas intervêm diante de situações de discriminação enquanto outras permanecem como espectadoras.
Um estudo publicado em janeiro de 2025 no American Journal of Community Psychology investigou os fatores que influenciam a decisão de intervir diante de episódios de racismo contra pessoas asiáticas. Os pesquisadores Bongki Woo e Benjamin Roth entrevistaram 20 universitários não asiáticos que haviam presenciado situações de discriminação.
A pesquisa identificou diferentes etapas envolvidas na decisão de agir: perceber o que está acontecendo, reconhecer a situação como algo que exige intervenção, assumir responsabilidade, decidir como ajudar e, finalmente, colocar essa decisão em prática.
O trabalho mostra que a disposição de ajudar não depende exclusivamente de a pessoa considerar uma atitude errada. Entre reconhecer uma injustiça e efetivamente fazer alguma coisa, existem obstáculos que podem dificultar a ação. Os autores também observaram que a experiência de intervir pode aumentar a confiança e a disposição para agir novamente no futuro.
O estudo é qualitativo e tem uma amostra pequena, portanto não permite generalizar seus resultados para todas as pessoas ou situações. Ainda assim, ajuda a compreender por que a omissão nem sempre decorre de indiferença deliberada: alguém pode perceber o problema, mas hesitar sobre o que fazer ou temer as consequências de se envolver.
Em março de 2026, a revista científica Journal of Prevention publicou uma discussão sobre os fatores que influenciam a intervenção de testemunhas em situações de risco. O artigo revisou pesquisas anteriores e destacou uma limitação importante: boa parte das evidências disponíveis se baseia em relatos retrospectivos, intenções declaradas e situações experimentais, que nem sempre reproduzem a complexidade de um acontecimento real.
Isso significa que afirmar que ajudaria alguém não é o mesmo que efetivamente agir quando uma situação acontece. Medo, incerteza, percepção do risco e dificuldade de identificar a melhor resposta podem interferir nessa decisão.
O texto também retoma um conceito conhecido na psicologia social: a difusão de responsabilidade. Quando várias pessoas presenciam uma situação, cada uma pode esperar que outra tome a iniciativa. Nesse cenário, a presença de testemunhas não garante que alguém vá intervir.
A discussão é particularmente relevante em episódios de assédio, violência e discriminação, nos quais o silêncio de quem observa pode deixar a pessoa atingida sem apoio imediato. Os autores defendem que as pesquisas precisam avançar na compreensão do comportamento em tempo real, em vez de avaliar apenas o que as pessoas dizem que fariam.
A frase de Desmond Tutu pode ser interpretada como um chamado à responsabilidade, mas isso não significa que toda pessoa precise enfrentar diretamente quem pratica uma injustiça, independentemente do risco envolvido.
Uma intervenção pode assumir diferentes formas. Em uma situação de discriminação, por exemplo, alguém pode manifestar discordância, apoiar a pessoa atingida, procurar ajuda de terceiros ou comunicar o ocorrido aos responsáveis. Em determinadas circunstâncias, afastar a vítima do ambiente hostil ou buscar auxílio profissional pode ser mais seguro do que confrontar o agressor.
Uma pesquisa publicada em janeiro de 2025 na revista Global Public Health examinou as barreiras e os facilitadores da intervenção diante do racismo cotidiano na Colômbia. O estudo reuniu respostas de 1.157 participantes e identificou fatores associados à disposição para agir, incluindo confiança, percepção de responsabilidade, reconhecimento do episódio e avaliação da segurança.
Os resultados reforçam que a decisão de intervir é influenciada tanto pelas convicções pessoais quanto pelas circunstâncias. Sentir responsabilidade e acreditar que se sabe como ajudar podem favorecer uma resposta, enquanto o receio das consequências pode dificultá-la.
O trabalho também evidencia que não basta cobrar uma atitude individual: criar condições para que as pessoas saibam como agir e encontrem formas seguras de pedir ajuda é parte importante da prevenção.
Nas redes sociais, ofensas, humilhações e ataques discriminatórios podem acontecer diante de centenas ou milhares de espectadores, muitos dos quais acompanham a situação sem se manifestar.
Uma revisão sistemática publicada em setembro de 2026 na revista Frontiers in Psychology reuniu 49 estudos sobre fatores associados à intervenção de testemunhas em casos de cyberbullying. A análise identificou a empatia, a confiança na própria capacidade de defender alguém e as orientações morais como fatores frequentemente associados à disposição para ajudar.
Os pesquisadores também ressaltaram a influência do contexto: relações entre as pessoas envolvidas, normas sociais e características das plataformas podem interferir na maneira como os espectadores reagem.
Na prática, apoiar quem sofre uma agressão, denunciar conteúdo abusivo ou evitar compartilhar publicações que ampliem a humilhação são algumas das formas possíveis de responder a uma situação de violência digital.
A declaração atribuída ao ativista sul-africano não deve ser confundida com uma conclusão científica segundo a qual toda pessoa que permanece em silêncio concorda com uma injustiça. As pesquisas mostram que a decisão de agir é complexa e pode ser atravessada por medo, insegurança, falta de preparo e avaliação dos riscos.
Ainda assim, os estudos ajudam a entender por que a ausência de uma resposta pode ter consequências para quem sofre uma agressão. Quando ninguém manifesta apoio ou procura interromper uma situação abusiva, a pessoa atingida pode continuar exposta ao comportamento e sentir que está sozinha.
É nesse ponto que a frase ganha força: ela questiona a ideia de que não se envolver seja sempre uma posição neutra. Em determinadas circunstâncias, a falta de reação pode contribuir para que uma situação injusta continue sem contestação.