Não foi apenas no Brasil: as taxas de natalidade tiveram uma queda brusca em todo o mundo. Segundo informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres estão tendo menos filhos. O menor número de nascimento foi registrado, em uma média de quase 50 anos.
A pesquisa mostra que há três anos (2023), a queda foi pelo quinto ano consecutivo, representando 0,7% a menos, se comparado a 2022. Outro ponto que merece destaque diz respeito aos que antecederam a pandemia de Covid-19: se comparamos a taxa de natalidade com o período entre 2015 a 2019, ela teve uma queda de 12%.
A questão relacionada à taxa de natalidade está constituindo um problema global, onde alguns políticos até chamaram a situação de um verdadeiro "colapso demográfico iminente". Se compararmos com épocas anteriores, há cerca de 60 anos, onde as pessoas tinham maneiras distintas de educar seus filhos, o índice de nascimentos era maior.
Para a ONU (Organização das Nações Unidas), de acordo com seu último relatório do Fundo de População, não diz respeito apenas a falta da vontade de ser mãe, mas sim de circunstâncias econômicas que tem impedido as pessoas de terem filhos. Algumas artistas também manifestaram o desejo de não quererem ser mães.
Outro ponto que merece destaque trata sobre o verdadeiro motivo por trás das mulheres adiarem a maternidade: muitas vezes, não é um problema ligado à economia, mas sim relacionado aos homens.
Para a professora Claudia Goldin, especialista em Economia da Universidade de Harvard, e vencedora do Prêmio Nobel de Economia (2023), a questão está além, pois mesmo com o valor dos imóveis altos, da incerteza com o mercado profissional e as mudanças culturais existentes, tem alguma coisa que não vem acontecendo nas residências hoje.
O Relatório Mundial de Fertilidade da ONU de 2024 indicou que, em cerca de 55% dos países, a taxa teve uma queda para menos de 2,1 filhos por pessoas do sexo feminino. Assim, 10% dos países ao redor do mundo têm uma taxa de fertilidade abaixo de 1,4 filhos, como exemplo, temos a China e o Japão.
No Brasil, estudos do IBGE indicam que as mães do Brasil estão decidindo ter filhos mais tarde, não tão cedo como antigamente. A pesquisa mostrou que 20,9% dos nascimentos em 2003, tiveram como origem mulheres com até 19 anos, uma porcentagem que caiu para 11,8% em 2023.
Em contrapartida, o percentual de pessoas do sexo feminino na faixa etária dos 30 anos foi de 23,9% para 39% (no mesmo período).
A pesquisadora Claudia deu uma declaração um tanto quanto chocante e inusitada em seu livro "Bebês e macoeconomia", ressaltando que a taxa de natalidade está bem além do que os dados realmente aparentam. O que acontece, na verdade, está relacionado aos costumes e as perspectivas do país.
Normalmente, quando o assunto trata sobre as taxas de natalidade, os governos relacionam logo ao dinheiro. São colocadas em prática algumas medidas como ofertas de bônus para bebês, até isenções de impostos fiscais.
No entanto, Goldin ressalta que essas medidas não são eficazes, já que desenvolver a economia por si só não garante 100% um impacto na natalidade. Países com uma economia mais próspera, como a China e o Japão, lugares onde os famosos costumam passar as férias, tem as menores taxas de fertilidade.
É de conhecimento geral que a economia importa sim e interfere na taxa de natalidade, além de impactar diretamente nas metas de vida das pessoas que são jovens hoje. No entanto, o dinheiro não é tudo. Se combinarmos os costumes de gênero, além do crescimento e a cultura do local, tudo isso interfere na decisão de ter ou não filhos.
Muitos jovens de hoje não estão querendo ter filhos, já que possuem outras metas para sua vida. Isso tudo tem impacto diretamente em como as estruturas sociais e domésticas estão sendo construídas na atualidade.
Esse público jovem cresceu entre o mundo herdado e o adotado, segundo Goldin. O primeiro diz respeito ao tradicional, onde as mulheres eram acostumadas a serem as donas de casa, muitas vezes não dando conta de tudo.
Já o segundo retrata a modernidade, onde as mulheres estudam, trabalham, e buscam formas de cuidar da família, como é exemplificado na figura batalhadora de Gerluce (Sophie Charlotte) em "Três Graças". Além disso, elas desejam maior igualdade de gênero. A problemática, para a expert, é que esses dois mundos não tem o mesmo peso para muitos.
Entendemos que as mulheres, hoje, tem outros sonhos, não se limitando apenas ao casamento e à geração de herdeiros. Elas querem construir uma carreira, viajar, terem filhos, e muitas vezes adiam a maternidade. Existe um distanciamento daquela "esposa" que as mães e avós de antigamente seguiam.
Entretanto, para muitos homens, questões de auxílio em tarefas domésticas, por exemplo, é suficiente, na modernidade. Muitos acabam ficando em segundo plano nas atividades do lar. Como ressalta a especialista, "não é que os homens sejam mais tradicionais, em vez disso, eles se beneficiam das tradições patriarcais", ressaltou.
De acordo com uma pesquisa apresentada na Conferência Anual de Pesquisa do Branco Europeu, as "mudanças econômicas rápidas desafiam crenças profundamente arcaicas. E estas mudam mais devagar que as economias".
Geralmente podem ocorrer atritos entre esses dois mundos, ainda mais quando ambos optam por ter um filho. As dúvidas vão surgindo, como por exemplo, quem vai reduzir a sua carga de trabalho, ou quem vai levar a criança no médico e preparar o lanche da escola. Muitas vezes, é a mulher que sai perdendo.
A desigualdade existente nas residências ainda é determinante e menos conhecida, por trás da queda nos números referentes à taxa de natalidade. Quando os filhos nascem, é habitual que as tarefas aumentem ainda mais para as mulheres, mesmo que os homens também tenham um aumento.
No que diz respeito às tarefas domésticas, em muitos países as mulheres costumam fazer muito mais que o dobro das atividades, se comparado às pessoas do sexo masculino. Para exemplificar, um estudo da Oxfam (confederação nacional), ressalta que 53,1% das mulheres lavam roupa, e a porcentagem dos homens é de apenas 13,3%.
Enquanto 45% das mulheres limpam a casa, apenas 9,9% dos homens realizam a atividade. O hábito de fazer comida também não fica de fora, já que ainda fica, muitas vezes, com as mulheres. Logo, é evidente que a taxa de natalidade esteja em queda, pois a mulheres acabam ficando, muitas vezes, sobrecarregadas.
Muitos costumes acabaram não evoluindo no tempo que as mudanças na economia e, algumas atividades do lar e o aumento de carga mental ainda continuam, na grande maioria, sendo de responsabilidade das mulheres. Acaba que a maternidade ainda é um compromisso "caro" para muitas de nós, e acaba sendo "conveniente" para os homens.
A pesquisadora explica que "parte da mudança na fertilidade vai depender dos homens assumirem mais atividades da casa, à medida em que as mulheres começarem a entrar no mercado de trabalho, ainda mais se tiverem crianças em casa". Eles costumavam ser mais rabugentos, não demostrando sentimentos.
Isso tornaria uma divisão mais equilibrada das responsabilidades domésticas. Na obra literária "Carreira e Família", ressalta que muitas empresas ainda trabalham com "práticas abusivas", ignorando a real situação do cuidado com os filhos. Muitas vezes, quem acaba se sacrificando ainda é a mulher.
Enquanto muitas mulheres lutam por um mundo mais justo e igualitário, alguns homens ainda defendem o modelo tradicional, onde a mulher ficava em casa, e eles é quem trabalhavam e tomavam as decisões. Na geração Z, por exemplo, os costumes são outros, como as perspectivas de mudança de emprego.
Será que existe uma "crise de masculinidade"? Muitos até chegam a atacar o feminismo, onde o sistema estaria "quebrado e sendo manipulado", de acordo com informações da magazine The New Yorker. O que se espera dos homens é, na verdade, o mínimo, para que os casais possam cooperar entre si.
Para a economista, políticas públicas precisam ser criadas e mais eficazes, com o objetivo de tornarem o equilíbrio entre o profissional e o pessoal viável entre as pessoas, suas famílias, e quem tem filhos. Precisamos de maior cooperação dos homens nas tarefas domésticas, como cozinhar, lavar, passar e tomar conta das crianças.
Precisamos olhar para o passado e ter novos olhos, onde a estudiosa Goldin sugere que as coisas hoje, realmente precisam ser diferentes de antigamente. A atual sociedade que incentiva a natalidade, deve torcer pela paternidade, assim como era a maternidade do passado.
O mundo está mudando, o comportamento e as atitudes também. Será que em algum momento, teremos situações mais justas para ambos?