Na novela 'Três Graças', da Rede Globo, Gerluce (Sophie Charlotte) parece dar conta de tudo: trabalha como cuidadora de Josefa (Arlete Salles), sustenta a casa, acompanha a gravidez da filha adolescente, Joélly (Alana Cabral), cuida da mãe doente, Lígia, e ainda encontra tempo para ser a namorada atenciosa de Paulinho (Romulo Estrela).
À primeira vista, ela encarna a imagem da 'supermulher': forte, resiliente, capaz de equilibrar mil funções sem deixar a peteca cair. Mas a pergunta que fica é: a que custo?
Durante os anos 1990, ganhou força a ideia da mulher empoderada que poderia conquistar o mercado de trabalho e ter sucesso fora de casa. Surgiu o ideal da 'girlboss', símbolo de independência e realização profissional.
O problema é que, junto com essa conquista legítima, veio uma armadilha silenciosa: além de trabalhar e crescer na carreira, a mulher também deveria continuar sendo mãe exemplar, esposa dedicada, filha presente e responsável pela organização do lar. Não era apenas “poder ser tudo”, mas “ter que ser tudo”.
A cultura popular, a publicidade e até as redes sociais reforçaram essa imagem da mulher que dá conta de casa, filhos e trabalho com um sorriso no rosto. Só que essa narrativa ignora a carga mental acumulada, a desigualdade salarial, a dupla, às vezes tripla, jornada e o impacto direto disso na saúde física e emocional.
Pesquisas recentes mostram que a maioria das mulheres reconhece que o excesso de responsabilidades no trabalho e na família afeta negativamente sua saúde. Ansiedade, estresse e esgotamento tornaram-se cada vez mais comuns. Grande parte ainda é a principal, ou única, responsável pelo cuidado dos filhos e da casa.
As próprias mulheres reconhecem a sobrecarga: conforme os dados do 5º Barômetro FEDEPE sobre liderança na atualidade, 87,4% do público feminino sabe que o excesso de responsabilidades no trabalho e na família afeta negativamente sua saúde física e 88,7%, sua saúde mental.
No mundo todo, mulheres realizam muito mais atividades não remuneradas do que os homens. E, muitas vezes chamado de 'amor' ou 'instinto', deixa de ser reconhecido como trabalho de fato.
A filósofa Silvia Federici já apontava que chamar o trabalho doméstico de amor foi uma forma eficiente de garantir que ele fosse feito de graça. O sistema depende desse esforço invisível, enquanto vende a ideia de empoderamento.
Gerluce, na ficção, representa esse retrato. Forte? Sim. Capaz? Sem dúvida. Mas também sobrecarregada. A supermulher feliz e plena o tempo todo é um mito.
O que existe, na prática, são mulheres reais tentando equilibrar expectativas altíssimas. Talvez o verdadeiro empoderamento não esteja em dar conta de tudo sozinha, mas em dividir responsabilidades e permitir-se não ser heroína o tempo inteiro.