Todo mundo conhece alguém que vive com uma lista interminável de tarefas, deixa tudo para a última hora ou adia repetidamente aquilo que sabe que deveria fazer.
A procrastinação costuma ser vista como um dos maiores inimigos da produtividade — e, muitas vezes, confundida com preguiça. Mas e se ela não fosse tão ruim assim? E se, quando bem compreendida, pudesse até ajudar a alcançar nossos objetivos?
Talvez essa aparente falta de ação esconda o verdadeiro santo graal do desenvolvimento pessoal.
A procrastinação não tem a ver com preguiça ou falta de vontade. Ela está profundamente enraizada no funcionamento do nosso cérebro e no nosso comportamento, estando relacionada a dificuldades para lidar com as emoções em momentos de estresse e ansiedade.
Em alguns casos, procrastinar pode até ser funcional. É o que acontece, por exemplo, quando adiamos uma tarefa para dar tempo às ideias amadurecerem ou para reunir mais informações antes de agir.
Mas existe uma última explicação para esse hábito — e talvez você nunca tenha pensado nela. Segundo John Perry, professor de Filosofia da Universidade Stanford, a procrastinação nasce do perfeccionismo.
W. Brad Johnson e David G. Smith escreveram na Harvard Business Review que "se os perfeccionistas têm sucesso no trabalho, é apesar do perfeccionismo, e não graças a ele".
Ainda assim, o perfeccionismo parece ter se transformado em uma característica desejável. Estima-se que, na Espanha, entre 2,1% e 7,9% da população apresente traços perfeccionistas.
"Meu maior defeito é ser muito perfeccionista" era uma frase comum em entrevistas de emprego, porque acreditávamos que nos definir dessa forma era, na verdade, uma qualidade. Nada poderia estar mais longe da realidade.
Segundo os especialistas da Área Humana, o perfeccionismo é uma tendência a estabelecer "padrões excessivamente elevados de desempenho, acompanhados por uma avaliação posterior excessivamente crítica", além de envolver medo de cometer erros e baixa tolerância à frustração.
De acordo com Chris Guillebeau, ele se baseia em um sistema de crenças que pode "limitar todo tipo de habilidades", chegando até mesmo a dificultar a realização das tarefas mais simples.
É justamente por isso que o perfeccionismo pode levar à procrastinação. Se a pessoa teme fracassar, uma das maneiras de evitar esse fracasso é simplesmente não fazer nada ou adiar indefinidamente a conclusão de uma tarefa, que acaba ficando travada.
Entendendo isso, fica mais fácil perceber que a procrastinação motivada pelo perfeccionismo pode produzir um efeito bastante interessante: favorecer nosso desenvolvimento pessoal.
Em alguns momentos, adiar uma tarefa estimula a criatividade graças a um fenômeno conhecido como incubação. Enquanto estamos ocupados com outras atividades, nosso cérebro continua processando aquela tarefa que ficou pendente.
Mais do que isso, um estudo observou que funcionários que procrastinam de forma moderada apresentam ideias mais criativas do que aqueles que agem imediatamente.
A procrastinação também pode funcionar como um filtro de prioridades, ajudando a reorganizar o foco naquilo que realmente importa.
Uma boa estratégia é fazer uma lista das tarefas que você vem evitando há algum tempo e se perguntar se realmente precisa realizá-las e se elas estão alinhadas aos seus objetivos. Ou, quem sabe, você as esteja adiando há semanas justamente porque não são tão importantes quanto imaginava.
Evitar uma tarefa também pode servir como um exercício de introspecção capaz de fortalecer a autoestima. Pergunte a si mesmo o que existe por trás dessa dificuldade em começar ou concluir algo. É medo? Insegurança? Falta de preparo? Talvez seja apenas falta de motivação.
Seja qual for a resposta, a procrastinação pode levar você a fazer perguntas importantes — e a avançar justamente por causa das respostas que encontrar.
Na apresentação de seu livro “Metafísica de la pereza” (Metafísica da Preguiça, em tradução livre), o filósofo Juan Evaristo Valls afirmou que "não há nada que não esteja contaminado pelo excesso de produtividade, pela sensação de fracasso contínuo. Quando a vida é submetida a essa lógica, os vínculos se rompem e se tornam mais frágeis."
Somos uma geração cansada, exausta do ritmo acelerado da vida, das cobranças externas e das exigências que impomos a nós mesmos.
O trabalho domina o curso das nossas vidas e, nessa luta constante para sermos cada vez mais produtivos, a preguiça e a procrastinação acabam se transformando em um verdadeiro ato de resistência.
Uma resistência necessária para estimular a criatividade, mas, acima de tudo, para continuar crescendo apesar de todos aqueles que insistem que nosso único papel é produzir. Como se fôssemos máquinas.
Procrastinar para seguir em frente, porque é justamente nesse tempo aparentemente perdido que ainda sobra espaço para sonhar — e para correr atrás dos próprios sonhos.