O despertador toca. Você se xinga, porque é muito cedo e está frio. Está tão gostoso na cama… “Fique aqui”, parece dizer sua mente. Mas você quer que aquele hábito que se propôs a adotar deixe de ser apenas um propósito para se transformar em realidade.
Só que sua mente tenta sabotá-lo constantemente, mesmo que você saiba o que vai conquistar quando esse hábito passar a fazer parte da sua vida.
O exemplo mais simples disso é a atividade física. Todos sabemos dos benefícios físicos e mentais que o exercício proporciona, mas sair para correr quando está frio não é algo que deixe nosso cérebro exatamente empolgado.
A psicóloga Patricia Ramírez, divulgadora, conferencista e autora de livros como “Cuenta contigo”, explicou no podcast “Endor Technologies” que isso também acontece com ela.
“Quando saio para correr de manhã, as pessoas acham que sou uma pessoa supermotivada e que saio como se as endorfinas já tivessem sido liberadas antes de correr. Não é assim, eu também tenho preguiça, às vezes estou cansada”, contou.
Ainda assim, ela consegue sair para correr — e faz isso com um truque simples: agir à margem dos pensamentos.
O primeiro passo é distinguir os pensamentos úteis daqueles que são inúteis.
“Útil é aquilo que você pode resolver naquele momento; inútil é aquilo que preocupa você, mas que não pode mudar agora”, explicou a especialista.
Em vez de classificar os pensamentos como positivos ou negativos, é melhor diferenciá-los entre úteis e inúteis, para que eles não ganhem uma conotação negativa antes mesmo de começarmos.
Uma vez que isso esteja internalizado, podemos “desconectar” daqueles pensamentos inúteis que não acrescentam nada e apenas nos provocam emoções desagradáveis.
Segundo Ramírez, os pensamentos inúteis não são verdades absolutas, portanto, “desconectar-se” deles e deixá-los passar sem se envolver em um diálogo interno é uma forma de evitar que nos impeçam de alcançar nossos objetivos.
Em vez de dar espaço a esses pensamentos de preguiça ou falta de motivação e tentar rebater aquilo que nossa própria cabeça diz, Ramírez aconselha a agir à margem deles e pensar naquilo que queremos alcançar.
Quando está frio e seu cérebro lembra você de que está sem a menor vontade de sair para correr, ela se desconecta desses pensamentos negativos para seguir em frente.
Para fazer isso, você pode começar agindo como se tivesse aquela força de vontade que está faltando, imaginando como alguém que estivesse motivado agiria, explica.
Mas o mais importante — e a chave de tudo — é deixar os pensamentos inúteis de lado, não negociar com eles nem ficar falando sobre eles, mas simplesmente deixá-los passar para que possamos nos concentrar no presente.
Você pode, como aconselha Ramírez, imaginar o pensamento inútil em um trem que chega, circula e vai embora. Uma vez visualizado, vamos reconhecê-lo, mas sem interagir com ele, para redirecionar a atenção à atividade presente.
E, se esses pensamentos se tornarem constantes, anote aqueles pensamentos inúteis que mais se repetem na sua cabeça, para reconhecê-los e evitar que ocupem sua mente o tempo todo.
Em seu primeiro livro, a psicóloga fala sobre o que chamou de “terapia do foda-se”. Como explica no podcast, às vezes ficamos esperando a motivação chegar para fazer as coisas, mas a verdade é que essa motivação nem sempre vai aparecer.
“Às vezes, é preciso fazer as coisas sem vontade, sem motivação, simplesmente porque é preciso fazê-las. E é aí que entra a terapia do ‘foda-se’. Ou seja, ‘foda-se e faça’. Não espere estar com vontade, não espere se sentir motivado, simplesmente faça. Porque, depois que você fizer, o bem-estar virá. A satisfação de ter cumprido, a sensação de realização, é isso que vai motivá-lo a seguir em frente. Mas, às vezes, é preciso começar sem vontade, simplesmente porque é preciso fazer.”