Nesta segunda-feira (28), a Paris Fashion Week começou com um encontro inédito de talentos brasileiros. Taís Araujo, Anitta, Liniker e Bella Campos estarão juntas na passarela do desfile-manifesto da L’Oréal Paris, na Place Joffre, com a Torre Eiffel como cenário. Pela primeira vez na história do evento, as quatro embaixadoras brasileiras participaram juntas da programação.
E, em um desfile que coloca a beleza e a aparência no centro das atenções, surge uma reflexão curiosa: você já chegou a uma festa, cumprimentou algumas pessoas e percebeu que alguém olhou para você da cabeça aos pés? A sensação pode ser desconfortável e despertar dúvidas sobre o que aquela pessoa está pensando. Mas, segundo a psicologia, esse comportamento pode ter uma explicação mais complexa do que um simples julgamento da aparência.
De acordo com uma análise publicada pelo portal espanhol CuerpoMente, a maneira como observamos os outros está relacionada à capacidade do cérebro de processar informações sociais rapidamente. Em poucos segundos, características como roupas, postura e movimentos podem influenciar a primeira impressão que formamos sobre alguém, inclusive em relação ao seu status social.
A psicóloga Leticia Martín Enjuto, colaboradora habitual do portal e diretora do centro de psicologia que leva seu nome, explica como esse mecanismo funciona e por que nem sempre devemos confiar naquilo que percebemos em um primeiro olhar.
Segundo Leticia Martín Enjuto, nosso cérebro está preparado para recolher informações rapidamente e construir uma interpretação inicial das pessoas que encontramos.
"Nosso cérebro está desenhado para recolher informações rapidamente e gerar uma primeira interpretação daquilo que temos diante de nós, especialmente quando se trata de outra pessoa", explica a especialista, conforme publicado pelo CuerpoMente.
A expressão facial, a maneira de se vestir, os movimentos e a postura corporal são alguns dos elementos que podem ser processados quase imediatamente. Isso acontece mesmo quando não estamos prestando atenção deliberadamente a cada detalhe.
Muitas dessas conclusões aparecem antes que tenhamos tempo de raciocinar conscientemente. Ou seja, aquela olhada rápida pode ser uma tentativa automática de compreender quem está diante de nós, e não necessariamente uma decisão consciente de criticar a aparência alheia.
© Youtube, L'Oréal Paris
Entre as informações que o cérebro tenta interpretar durante esse primeiro contato está o lugar que uma pessoa ocupa em determinado contexto social. De acordo com Leticia Martín Enjuto, roupas, acessórios, segurança ao caminhar e até a maneira como alguém ocupa o espaço podem funcionar como pistas para essa avaliação.
A especialista ressalta, porém, que isso não significa que seja possível conhecer verdadeiramente alguém apenas observando sua aparência durante alguns segundos. A forma de vestir pode refletir gostos pessoais, personalidade, profissão, pertencimento a determinado grupo ou simplesmente as circunstâncias daquele dia. Por isso, uma primeira impressão não é uma prova sobre a realidade de uma pessoa.
O problema aparece quando o cérebro ultrapassa as informações disponíveis e começa a preencher as lacunas com base em experiências anteriores e estereótipos. Uma roupa pode ser associada ao sucesso, enquanto determinada postura pode ser interpretada como sinal de confiança. Da mesma forma, alguns acessórios podem levar alguém a presumir um nível econômico específico, mesmo sem conhecer a história de quem os utiliza.
© Youtube, L'Oréal Paris
Outro conceito importante para compreender esse tipo de olhar é a teoria da comparação social, proposta por Leon Festinger. Segundo essa teoria, quando precisamos avaliar aspectos que não possuem critérios objetivos, podemos recorrer à comparação com outras pessoas para formar uma percepção sobre nosso próprio valor.
O status social é um exemplo desse tipo de avaliação. Como não existe uma medida objetiva que determine o lugar de cada indivíduo em todas as situações, observar os outros pode funcionar como uma referência. Conforme explica Leticia Martín Enjuto, temos uma "tendência natural a nos compararmos com os demais".
Em situações sociais, o cérebro pode tentar identificar automaticamente se alguém parece familiar, transmite autoridade ou segurança ou se seria necessário manter determinada distância. Esse processo ajuda a compreender por que uma pessoa pode observar outra dos pés à cabeça sem ter plena consciência do que está fazendo.
© Youtube, L'Oréal Paris
Apesar de acontecer rapidamente, a avaliação inicial não é necessariamente precisa. Isso porque cada pessoa interpreta aquilo que vê a partir de sua própria trajetória. Segundo a psicóloga, o cérebro utiliza experiências anteriores e padrões aprendidos para interpretar informações limitadas. É justamente por isso que pode cometer erros.
O que uma pessoa considera elegância, por exemplo, pode parecer exagerado para outra. Da mesma maneira, uma postura interpretada como segurança pode ser vista como arrogância por alguém com referências diferentes.
"A nossa educação, nossas experiências e aquilo a que aprendemos a prestar atenção influenciam essas primeiras leituras", explica a especialista.
Assim, o olhar de cima a baixo não revela, por si só, o que alguém pensa sobre você. Embora a aparência possa transmitir informações sociais, as interpretações também carregam os preconceitos, as expectativas e as vivências de quem observa.
© Youtube, L'Oréal Paris
Para Leticia Martín Enjuto, o mais importante é reconhecer que as primeiras impressões são construídas a partir de atalhos mentais, que podem falhar.
Isso não significa necessariamente que uma pessoa seja superficial ou que queira menosprezar alguém ao observar sua aparência. O comportamento pode ser uma consequência da capacidade do cérebro de processar informações sociais em pouco tempo.
A recomendação apresentada pela especialista é colocar essas impressões em perspectiva e evitar atribuir a elas uma importância maior do que realmente têm. Afinal, embora seja possível formar uma ideia inicial sobre alguém em questão de segundos, conhecer verdadeiramente uma pessoa exige muito mais do que um primeiro olhar.