As gerações se sucedem, mas seus modos de vida diferem radicalmente. Esses hábitos e normas geracionais podem influenciar nosso caráter, nossa maneira de ser e nossas escolhas de vida.
É justamente isso que a psicologia permite explorar ao se debruçar sobre a geração dos "baby boomers", geralmente definida como aquela que reúne as pessoas nascidas entre 1946 e 1964.
Tendo crescido no período de reconstrução que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, muitas vezes em famílias numerosas e em sociedades muito diferentes das atuais, essas crianças conheceram uma realidade hoje difícil de imaginar.
Naquela época, não era raro que crianças participassem desde muito cedo das tarefas familiares, especialmente em propriedades agrícolas ou nos comércios de seus pais.
A própria noção de "vocação" ocupava então um lugar muito diferente daquele que pode ter hoje: a escolha de uma profissão frequentemente respondia às necessidades imediatas da família e às possibilidades oferecidas pelo meio social, em vez de buscar realização pessoal.
Prosseguir os estudos secundários ou superiores também era menos acessível do que atualmente. Essa realidade afetava particularmente as meninas, cujas escolhas profissionais e familiares ainda eram fortemente condicionadas pelas normas sociais da época.
Mas aquele período também oferecia, em contrapartida, uma forma de liberdade difícil de encontrar hoje. Os pais trabalhavam muito, as ruas eram menos vigiadas e as telas não existiam.
As crianças, assim, passavam mais tempo fora de casa, às vezes sem nenhum adulto por perto, tendo como única orientação voltar para o jantar. A ausência de opções de entretenimento digital as levava a inventar suas próprias brincadeiras, explorar o ambiente ao redor e desenvolver certo grau de autonomia.
Os conflitos entre crianças também eram resolvidos mais frequentemente cara a cara, o que podia favorecer o aprendizado das interações sociais e da gestão dos desacordos.
É justamente essa autonomia e o espaço concedido às brincadeiras livres que interessam aos psicólogos.
Os trabalhos de Peter Gray, em particular, destacaram os possíveis benefícios da brincadeira livre para o desenvolvimento da autonomia, a tomada de riscos, a resolução de conflitos e a capacidade de enfrentar as dificuldades.
No entanto, seria exagerado concluir que essas características definem todas as pessoas nascidas nas décadas de 1950 e 1960.
Ao assumirem responsabilidades desde muito jovens, alguns integrantes dessa geração também podem ter desenvolvido uma sensação de controle sobre o ambiente ao seu redor.
O psicólogo americano Herbert M. Lefcourt dedicou-se amplamente ao conceito de "locus de controle", que diz respeito à maneira como uma pessoa percebe a influência que pode exercer sobre os acontecimentos de sua vida.
Seus trabalhos mostram que essa dimensão psicológica está relacionada a diferentes comportamentos sociais e a determinadas atitudes diante do aprendizado e do sucesso.
Ainda assim, essa aparente solidez não deve ser confundida com ausência de fragilidade. O conceito de resiliência, amplamente popularizado pelo psiquiatra e neuropsiquiatra Boris Cyrulnik, diz respeito à capacidade de se reconstruir após experiências difíceis.
Isso, porém, não significa que uma pessoa seja invulnerável ou que simplesmente deva "aguentar firme". Boris Cyrulnik, ao contrário, enfatiza a importância do ambiente afetivo e das relações humanas nos processos de reconstrução.
Entre as gerações que cresceram em meados do século XX, a expressão das emoções às vezes era menos incentivada do que é hoje. Muitos foram educados com a ideia de que era preciso ser forte, trabalhar duro e não reclamar demais.
Essa educação podia favorecer certa capacidade de suportar as dificuldades, mas também podia levar algumas pessoas a guardar suas emoções para si ou minimizar seus próprios sofrimentos.
Em contrapartida, as gerações mais recentes dão mais espaço à identificação e à expressão das emoções. Essa mudança não significa necessariamente que sejam menos resistentes do que seus antecessores.
Trata-se, antes, de outra concepção de força psicológica: enquanto antes se valorizava a capacidade de cerrar os dentes e seguir em frente, hoje se dá mais ênfase à capacidade de reconhecer os próprios limites, pedir ajuda e colocar em palavras aquilo que se sente.
No fim das contas, portanto, colocar as gerações umas contra as outras não faz muito sentido. As pessoas nascidas nas décadas de 1950 e 1960 cresceram em um contexto que frequentemente lhes exigia mais autonomia e responsabilidades precoces.
As gerações seguintes se desenvolveram em um ambiente diferente, marcado por maior proteção, tecnologia e conscientização sobre as questões psicológicas. São dois contextos diferentes que podem produzir duas formas distintas de resiliência.