Alfredo Rodríguez-Muñoz, especialista em sono e professor universitário em Madri: 'Estamos dormindo pior do que nunca, mesmo sabendo cada vez mais sobre a importância do descanso'
Publicado em 10 de julho de 2026 às 19:02
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
O psicólogo explica os motivos pelos quais estamos dormindo cada vez pior e dá algumas orientações para combater a insônia
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Dormir se tornou um dos grandes problemas silenciosos da vida contemporânea. O estresse, a hiperconectividade e a sensação de que sempre há algo por fazer impedem muitas pessoas de realmente desligar a mente e descansar como deveriam.

Mesmo quando o corpo se deita, a mente continua funcionando, revisando pendências, estímulos ou conversas recentes, como se nunca houvesse um verdadeiro ponto final no dia. E, de fato, para muitas pessoas, a insônia e a dificuldade para pegar no sono estão entre os grandes problemas do século XXI.

Mesmo entre pessoas que não sofrem de transtornos do sono, esse déficit de descanso nem sempre é percebido de forma imediata. Ainda assim, seus efeitos acabam se espalhando e comprometendo a saúde e a qualidade de vida, afetando a capacidade de concentração e o humor, e prejudicando o sistema cardiovascular, o sistema imunológico, a memória e o equilíbrio emocional.

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Em resumo, as pessoas dormem menos e, sobretudo, pior. E o cérebro, literalmente, não consegue fazer sua "limpeza" adequada quando não dormimos.

O sono não se força: ele é permitido

Alfredo Rodríguez-Muñoz é professor catedrático de Psicologia da Universidade Complutense de Madri e autor do livro Dormir para vivir (Dormir para viver, em tradução livre).

Em entrevista ao jornal ABC, o especialista explica com bastante clareza por que ainda não conseguimos resolver algo que, em teoria, todos sabemos ser importante: "O problema não é falta de informação, mas de contexto." Ou seja, saber que é preciso dormir oito horas por noite adianta pouco se o ambiente em que vivemos conspira ativamente contra isso.

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Segundo Rodríguez-Muñoz, a situação é clara: "Construímos uma sociedade que recompensa o estado de vigília e desconfia do descanso." 

Durante décadas, dormir foi culturalmente associado à perda de tempo, à falta de produtividade e a uma espécie de fraqueza que os mais fortes podiam se dar ao luxo de ignorar. Essa cultura não desapareceu completamente, embora hoje ninguém a defenda abertamente. 

O especialista aponta três principais causas para a piora generalizada da qualidade do sono.

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A primeira é a exposição constante às telas. A segunda é o que ele chama de cultura da hiperatividade: "Transformamos o cansaço em uma medalha invisível." Já a terceira é o desaparecimento dos limites de horário entre trabalho, lazer e descanso. "Já não existe mais um horário de descanso; vivemos em um fluxo contínuo em que trabalhar, responder mensagens ou descansar já não têm fronteiras claras", afirma.

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A noite tomada pelas telas

Uma em cada quatro pessoas adultas não descansa bem e, para explicar esse cenário, Rodríguez-Muñoz recorre a uma comparação bastante precisa: "Colonizamos a noite com luz, telas e atividade, e o corpo tenta se adaptar a um mundo que nunca se apaga completamente."

Usar o celular antes de dormir é um dos hábitos mais comuns e, segundo o psicólogo, também um dos mais prejudiciais. "É como dizer ao cérebro que o dia ainda não terminou."

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A luz azul emitida pelas telas atrasa a liberação da melatonina — hormônio que regula o ciclo do sono — e o próprio conteúdo consumido mantém o cérebro em estado de alerta, algo incompatível com o relaxamento. Ou seja, o problema não é apenas o brilho da tela, mas também o estímulo provocado pelo que estamos assistindo ou lendo.

Diante disso, Rodríguez-Muñoz defende uma medida aparentemente simples: a exposição à luz natural pela manhã. "Dormir bem não depende apenas do que fazemos à noite, mas também de como vivemos o dia." O relógio biológico precisa de sinais claros para funcionar corretamente, e a luz do sol é o mais poderoso deles.

O que o especialista recomenda para dormir melhor

Na hora de criar hábitos que favoreçam uma boa noite de sono, Rodríguez-Muñoz recomenda começar a cuidar do descanso logo pela manhã. Praticar alguma atividade física, se expor à luz natural e manter horários regulares ao longo do dia ajudam a sincronizar o relógio biológico antes da chegada da noite.

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Sobre a soneca da tarde, o especialista faz uma ressalva: um cochilo curto, de 20 a 30 minutos e não muito tarde, pode melhorar o desempenho. Porém, se ele se prolongar ou acontecer no fim da tarde, tende a prejudicar o sono noturno. A recomendação, portanto, é nem abrir mão completamente desse hábito, nem exagerar.

Dormir bem também exige uma mudança de mentalidade

Há ainda uma mudança cultural que, segundo ele, é indispensável: deixar de encarar dormir pouco como um sinal de produtividade. "O sono não se força: ele é permitido. E, para permitir isso, é preciso parar de viver contra ele."

Um descanso adequado melhora a memória, a capacidade de tomar decisões e a regulação das emoções. Já a falta de sono aumenta a incidência de erros, o estresse e o risco de desenvolver doenças a longo prazo.

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Por fim, Rodríguez-Muñoz lembra que a privação de sono eleva o risco de doenças cardiovasculares, compromete o funcionamento do sistema imunológico, dificulta a consolidação das memórias e acelera o declínio cognitivo.

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