O primeiro trailer de “Dark Horse”, cinebiografia sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, mal chegou às redes sociais e já se tornou assunto... mas não exatamente da forma que seus idealizadores provavelmente esperavam, claro! Entre comparações com produções de baixo orçamento, críticas ao inglês carregado dos personagens e ironias sobre o tom messiânico da narrativa, a prévia do longa virou alvo de deboche no X, antigo Twitter.
Ao mesmo tempo, o lançamento acontece em meio a uma nova crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apontado como um dos principais financiadores do projeto. Segundo reportagens do Intercept Brasil, mais de R$ 60 milhões teriam sido destinados ao filme entre 2025 e 2026.
Divulgado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do longa e autor do argumento do roteiro, o trailer apresenta Bolsonaro como um líder perseguido pelo “sistema”. Em uma das frases centrais da prévia, a narração afirma que ele “era a voz do povo e enfrentou o sistema… o sistema que o temia”. Gente!?
A construção da narrativa acontece toda em um tom épico e quase religioso. A facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 é tratada como o grande ponto de virada dramático da história, embalada por trilha tensa, personagens alarmados e frases como “o sistema falhou em silenciá-lo”.
O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” também aparece em destaque, reforçando a tentativa de retratar o ex-presidente como uma espécie de herói político incompreendido. O problema é que, para parte da web, a abordagem soou menos como uma cinebiografia e mais como uma peça de propaganda.
Isso porque o trailer ignora temas que marcaram profundamente a trajetória pública de Bolsonaro e que ajudaram a torná-lo uma das figuras mais polarizadoras da história recente do Brasil: suas declarações frequentemente classificadas como racistas, homofóbicas e autoritárias; a defesa pública da ditadura militar; os ataques recorrentes às instituições democráticas; o negacionismo durante a pandemia da Covid-19; além da condenação por tentativa de golpe de Estado, que levou o ex-presidente à prisão.
Em vez disso, o material aposta em enquadramentos heroicos, frases de efeito e uma estética inspirada em thrillers políticos americanos.
Outro detalhe que rapidamente dominou as redes sociais foi o fato de “Dark Horse” ser falado majoritariamente em inglês, apesar de retratar um ex-presidente brasileiro e uma campanha eleitoral brasileira. “Desde quando o Brasil fala inglês como língua materna?”, ironizou uma usuária no X.
“Um filme sobre um ex-presidente brasileiro interpretado por um ator americano, dirigido por um norte-americano e produzido por uma empresa norte-americana. Patriotismo de meia tigela”, escreveu outro perfil.
A escolha dividiu opiniões e levantou questionamentos sobre a estratégia da produção. Enquanto apoiadores enxergam potencial internacional no projeto, críticos argumentam que o longa parece mais interessado em reproduzir fórmulas hollywoodianas do que em retratar a realidade política brasileira.
Também viralizaram comentários debochando do visual do trailer e do orçamento milionário do filme. “O filme Godzilla Minus One custou aproximadamente o mesmo valor”, comparou um internauta. “Mais de R$ 60 milhões e não conseguiram fazer um trailer que preste”, publicou outro usuário.
Houve ainda quem comparasse a fotografia da produção a programas de TV de baixo orçamento e quem ironizasse o fato de o público bolsonarista precisar “ler legenda”.
As críticas ao trailer ganharam ainda mais força porque o lançamento ocorre em meio à repercussão envolvendo Daniel Vorcaro.
Segundo reportagens do Intercept Brasil, o empresário teria investido cerca de R$ 61 milhões no longa em operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025. O valor total negociado, segundo a publicação, poderia chegar a R$ 134 milhões.
Nesta terça-feira (19), Flávio Bolsonaro confirmou publicamente que se reuniu com Vorcaro após a prisão do banqueiro. O encontro gerou desconforto até mesmo entre aliados do PL.
Analistas políticos da CNN Brasil classificaram a condução da crise como um erro estratégico da pré-campanha presidencial de Flávio. Durante o programa “Bastidores CNN”, jornalistas apontaram que a revelação tardia do encontro ampliou o desgaste político e alimentou novos questionamentos sobre a relação da família Bolsonaro com o empresário.
A repercussão acabou contaminando diretamente o lançamento do trailer. Nas redes sociais, muitos usuários passaram a associar o alto orçamento do filme ao escândalo financeiro envolvendo Vorcaro. Alguns comentários chegaram a insinuar lavagem de dinheiro, sem, porém, apresentar provas.
Até que ponto uma cinebiografia pode romantizar uma figura política tão controversa sem ser acusada de revisionismo? Ainda mais quando se trata de um ex-presidente cuja trajetória inclui ataques às urnas eletrônicas, defesa pública da ditadura militar, disseminação de desinformação durante a pandemia e uma condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado.
Enquanto o filme tenta vender a ideia de um líder perseguido pelo sistema, muitos usuários lembram que o político hoje cumpre pena após condenação do Supremo Tribunal Federal. “O sistema falhou em silenciá-lo”, ironizou um internauta ao comentar: “ele perdeu a eleição, foi preso e quase morreu”.
Se a intenção era lançar um trailer épico e inspirador para a base conservadora, a reação online mostrou que, para muita gente, o resultado final ficou mais próximo de uma sátira involuntária.