[ALERTA: o texto a seguir aborda assuntos relacionados a violência doméstica. Caso você esteja passando por uma situação do tipo ou conheça alguém que precise de ajuda, procure a Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas pelo telefone 180, ou a Delegacia Especializada da Mulher (DDM) mais próxima]
O caso de Igor Eduardo Pereira Cabral, ex-jogador de basquete, preso após ser flagrado em vídeo espancando a namorada com mais de 60 socos dentro de um elevador, gerou revolta nas redes sociais. No entanto, em um fenômeno perturbador, o agressor passou a receber declarações de amor, pedidos de contato e mensagens de apoio emocional de centenas de mulheres.
Segundo o portal "EM OFF", foram 1.542 e-mails enviados por mulheres interessadas em se aproximar de Igor. Muitas das mensagens apresentavam tom romântico e afetivo, com frases como "ele merece amor e compreensão" ou ofertas de apoio emocional. Algumas ainda pediam ajuda para visitar o agressor ou estabelecer contato direto com ele.
O comportamento de quem sente atração por criminosos violentos não é novidade e tem um nome: hibristofilia. Trata-se de uma parafilia, um tipo de desejo sexual ou emocional, por pessoas que cometeram crimes, em especial os mais brutais e violentos.
Segundo fonte da colunista Fábia Oliveira do Metrôpoles, Heitor Werneck, produtor cultural da Parada LGBTQIAP+ de São Paulo e criador do Projeto Luxúria, uma das maiores festas BDSM da América Latina, o fenômeno tem raízes na cultura pop:
"O fetiche em criminosos violentos começa no cinema. Filmes de mafiosos, gangues e até vilões como os do Batman mostram esses homens como protetores de mulheres extremamente femininas e bem cuidadas", afirmou o especialista.
A explicação para esse tipo de atração vai além da curiosidade. Para Werneck, há uma construção simbólica do criminoso como uma figura rude, primitiva e dominadora, mas ao mesmo tempo capaz de carinho — o que ativa a fantasia de poder e proteção.
"É o desejo de ser dominada por um homem rude. Isso mexe com o imaginário, com o sexual. O marginal oferece perigo e proteção. É viver à margem da sociedade, fora da moralidade convencional", explica.
Segundo ele, o fetiche envolve também elementos como armas, sequestros simulados e cenas planejadas de dominação. Em eventos como o Projeto Luxúria, algumas pessoas até encenam essas fantasias com amordaçamento, jaulas e sexo em público — tudo com consentimento.
"No fetiche, tudo é acordado. No crime, não. Por isso é preocupante quando o imaginário se mistura com a realidade sem filtros. Não é amor, é fantasia disfarçada de salvação", alerta Werneck.
Apesar do choque inicial com a brutalidade do crime, o caso de Igor Cabral escancara um padrão já visto em outras situações. Assassinos em série e agressores notórios, inclusive internacionais, já receberam cartas de amor, propostas de casamento e até pedidos de visitas íntimas.
Neste caso, o que impressiona é a rapidez com que Igor foi fetichizado. Enquanto a vítima luta para se recuperar emocional e fisicamente, o agressor vira uma espécie de símbolo de desejo. Um suposto vídeo íntimo com outro homem, também divulgado após sua prisão, alimentou ainda mais o interesse público, como noticiou o próprio portal "EM OFF".
A romantização de criminosos nas redes sociais revela não apenas um transtorno psicológico, mas um sintoma social alarmante, alimentado por redes, cultura pop e uma perigosa confusão entre fantasia e realidade.