A morte de Angela Ro Ro, aos 75 anos, nesta segunda-feira (8), no Rio de Janeiro, encerra uma trajetória marcada não somente pelo talento e irreverência, mas por uma dura batalha nos últimos anos. A cantora, uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira, enfrentava uma delicada crise de saúde e financeira.
Desde junho, Ro Ro estava internada no Hospital Silvestre, no Cosme Velho, após ser diagnosticada com uma infecção pulmonar grave. O quadro se agravou e ela chegou a passar por uma traqueostomia, de acordo com informações do g1. Segundo o advogado Carlos Eduardo Lyrio, a artista sofreu uma nova infecção e não resistiu. Ainda de acordo com o veículo, a certidão de óbito aponta infecção generalizada e pneumonia bacteriana como causas da morte.
Antes da internação, amigos próximos já vinham manifestando preocupação. O produtor musical e amigo pessoal Paulinho Lima fez um apelo público nas redes sociais em maio de 2025, revelando as condições da cantora.
"Dói em mim saber que a solidão existe sim dói! [...] Roro está no seu apartamento, em Copacabana, onde sempre viveu desde criança, completamente debilitada, sem querer receber ninguém, se auto medicando, insistindo em não receber médicos, a não ser os que possa fazer consultas por telefone. Quem conseguiu entrar em sua casa, usando as mais diversas estratégias a encontraram debilitada, sem condições de ir sozinha ao banheiro", escreveu ele no Instagram.
Depois, Paulinho explicou que a artista não tinha amigos ou parentes próximos. "Ângela, pelo que sei, não tem parentes próximos com quem conviva. Os amigos que fez pela vida tem receio de contraria-la. O que fazer? Já resgatei-a uma vez, quando produzi seu primeiro disco e seu primeiro show no Teatro Ipanema. Ela é sempre carinhosa comigo e quando vou a suas apresentações me faz citações do palco falando do nosso encontro tão frutífero", continuou.
"Pode ser que com essa postagem ela me ameace com processos e outras coisas. Estou pronto para os tribunais. Não gostaria que ela terminasse seus dias como as irmãs Batista e outros que se esquecem de si mesmo", concluiu o desabafo.
Além dos problemas de saúde, Angela Ro Ro enfrentava uma dura crise financeira. Sem aposentadoria, ela contava apenas com cerca de R$ 800 mensais em direitos autorais, de acordo com o Portal Metrópoles.
A própria cantora chegou a recorrer às redes sociais para pedir ajuda. Também no Instagram, ela revelou uma infecção no sangue e, na ocasião, ainda uma suspeita de câncer. "Fui diagnosticada com infecção no sangue e suspeita de câncer. Sem perspectiva de alta ou cura para trabalhar. Humildemente, peço a ajuda de vocês", escreveu ela, divulgando sua chave pix no perfil. "É o meu CPF. É minha saúde. Quem puder, ajude e não critique, nem duvide. Grata. Tanta gente dando golpe, e eu estou precisando de verdade", concluiu.
Angela Maria Diniz Gonsalves, conhecida artisticamente como Angela Ro Ro, nasceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1949. Dona de uma voz rouca inconfundível e de uma personalidade intensa, se consolidou como um dos nomes mais autênticos da MPB.
Seu álbum de estreia, "Angela Ro Ro" (1979), tornou-se um clássico, reunindo canções como “Amor, Meu Grande Amor”, “Gota de Sangue” e “Agito e Uso”. A Rolling Stone a elegeu como a 33ª maior voz da música brasileira.
Influenciada por Maysa, Dolores Duran e Ella Fitzgerald, ela transitava entre o blues, o samba-canção, o bolero e o rock. Canções suas foram gravadas por grandes intérpretes, como Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Marina Lima.
Polêmica, irreverente e de temperamento forte, Angela também se tornou figura marcante fora dos palcos, seja por entrevistas explosivas, seja por sua postura de resistência artística.
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