A solidão costuma ser associada à ausência de companhia, ao silêncio de uma casa vazia ou à falta de alguém por perto. Mas, para Carl Jung, a experiência é muito mais profunda e dolorosa. O psiquiatra suíço, considerado um dos maiores nomes da psicologia analítica, acreditava que a verdadeira solidão nasce quando alguém perde a capacidade de comunicar aquilo que realmente importa dentro de si.
“A solidão não vem da falta de pessoas por perto, mas da incapacidade de comunicar aquilo que nos parece importante”, escreveu Jung em Memórias, Sonhos, Reflexões.
A frase é extremamente atual porque descreve um tipo de vazio emocional muito comum na vida moderna, pois podemos estar cercado de pessoas, conversar diariamente, trabalhar, conviver socialmente e, ainda assim, sentir que ninguém compreende de verdade aquilo que acontece internamente.
Nesse sentido, Jung rompe com a ideia simplista de que solidão significa apenas isolamento físico. Para ele, uma pessoa pode estar acompanhada o tempo inteiro e continuar profundamente sozinha. Isso acontece quando pensamentos, dores, inseguranças ou sentimentos importantes não encontram espaço para serem compartilhados.
As palavras de Jung também se conectam com o relato recente do ator Alexandre Borges. O artista, que estará na próxima novela das nove da Globo, 'Quem Ama, Cuida', falou sobre a dificuldade de lidar com a solidão desde a morte da mãe, Rosa Borges, em 2021.
Solteiro há mais de dez anos após o fim do casamento de 22 anos com Julia Lemmertz, Alexandre comentou sobre o assunto durante participação no talk show 'Surubaum', em 2025.
“Não é que eu seja um cara isolado, sozinho. Até como ator, eu me coloco em xeque do que é esse momento, essa possibilidade de não poder ligar para a mãe... Só aquela conversinha, já te dá um abraço, um aconchego. A gente nasce sozinho, vai morrer sozinho, e tem que aprender a viver sozinho.”
A fala do ator chama atenção justamente porque mostra um tipo de solidão emocional muito parecido com o que Jung descrevia. Alexandre Borges não está isolado do mundo, pois continua trabalhando, convivendo socialmente e cercado de pessoas. Ainda assim, existe um vazio específico provocado pela ausência daquela conexão íntima e acolhedora que existia na relação com a mãe.
E é exatamente aí que a reflexão de Jung ganha força. Para o psiquiatra, a dor da solidão aparece quando não conseguimos compartilhar aquilo que consideramos essencial. Não basta falar superficialmente sobre assuntos cotidiano, é preciso sentir que existe espaço para mostrar vulnerabilidades, medos, dúvidas e emoções reais sem receio de julgamento.
Quando isso não acontece, surge uma sensação difícil de explicar: a vida parece funcional por fora, mas emocionalmente desconectada por dentro.
A psicologia moderna também reforça essa visão ao mostrar que conexões emocionais genuínas têm impacto direto na saúde mental. Relações em que existe escuta verdadeira ajudam a reduzir ansiedade, sofrimento emocional e sensação de vazio. Por outro lado, vínculos superficiais podem aumentar justamente a impressão de desconexão.
No fim das contas, como o próprio Jung sugere, a solidão nem sempre se resolve apenas com companhia. Às vezes, ela só diminui quando finalmente encontramos alguém capaz de ouvir aquilo que guardamos em silêncio há muito tempo.