Ícone dos anos 1980 e um dos maiores gênios da MPB, Cazuza faria 68 anos neste sábado (4). Vítima de complicações da Aids, doença que vitimou ainda dois atores da Globo, o ex-colega de escola de um famoso jornalista saiu de cena de forma precoce aos 32 anos em 7 de julho de 1990.
Compositor e intérprete de "Faz Parte do Meu Show", Agenor de Miranda Araújo Neto se tornou o primeiro ídolo popular a assumir o diagnóstico da síndrome de imunodeficiência adquirida. No final de abril de 1989 e pesando apenas 40 quilos não deixou sem respostas perguntas referentes à orientação sexual, drogas e alcoolismo: "É minha criatividade que me mantém vivo".
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Infelizmente, o ex-integrante do Barão Vermelho não conseguiu levar adiante um desejo. "Tenho certeza de que vou viver muito tempo ainda. Minha criatividade me mantém vivo. Minha cabeça comanda tudo. Já perdi a oportunidade de morrer, passou minha vez", frisou à revista "Veja", da qual foi capa, acrescentando que não tinha medo da morte e que já havia cogitado atentar algo contra si. "Já pensei em suicídio, mas agora isso nem passa pela cabeça", afirmou.
"Falei com meu médico: se alguma coisa acontecer comigo, eu não quero ver. Que ele me dê morfina, muita morfina, porque eu quero ir embora dormindo", prosseguiu Cazuza, que morreria dormindo pouco mais de um ano depois. Àquela altura, o gênio da MPB dormia a base de calmante, enfrentava problemas respiratórios e já havia passado por uma grande crise ao descobrir o diagnóstico de Aids, doença que também teria tirado de cena dois grandes humoristas.
"Quase quebrou toda a mobília por duas vezes: atirou garrafas na janela, chutou cristaleiras e jogou vasos no chão", relatou a publicação.
De maneira fraca, admitiu que aos 12 anos fumou baseado pela primeira vez: "Pensei que a maconha era o máximo". Isso o levou a ser expulso de um colégio na capital fluminense. Depois vieram oito detenções por conta da mesma maconha, seguida do uso de outras drogas (cocaína e heroína), e do vício em álcool.
Filho de Lucinha Araújo e João Araújo (1935-2013), fundador da gravadora Som Livre, Cazuza ainda comentou a respeito da orientação sexual. "Quando eu tinha 3 anos, meu pai me deu uma bola. Eu a peguei no colo e a ninei como a uma boneca. Essa foi a primeira decepção que meu pai teve comigo", afirmou o artista, que em 1985 passou a apresentar febre nos finais das tardes - para ele, um sintoma da Aids.
"Tomava duas aspirinas e ia para o bar, beber. Se nesse começo tivesse ido a um médico, hoje estaria muito melhor (...). Agora faço tratamento psiquiátrico para sair do alcoolismo. Tomo remédio para não ter vontade de beber, e não bebo", prosseguiu o intérprete de "Exagerado".
Ao longo de oito páginas, o cantor e compositor lembrou também quando buscou tratamento nos EUA. "(No local) pensei muito e acabei descobrindo que ficar calado me deixava ainda mais traumatizado (...). Mostrar aos outros que com a Aids pode-se continuar vivendo, trabalhando, produzindo em pareceu o caminho mais certo. Agora me sinto mais aliviado", continuou Cazuza.
O roqueiro ainda apontou que Lauro Corona (1957-1989) enfrentava a mesma doença que ele. "Quem tem Aids fica com o cabelo ralo no laço da cabeça (...). Mas ele vai esconder a doença até morrer (...). É muito galãzinho, muito vaidoso. Deus queria que ele não tenha Aids", opinou sobre o ator que morreria menos de três meses depois.