Há fases da vida que chegam repletas de perguntas, porque ninguém traz um manual debaixo do braço para lidar com as diferentes etapas da vida e com os problemas que surgem em cada uma delas.
A menopausa é uma dessas fases que sabemos que vai chegar, mas não sabemos ao certo como enfrentá-la, tanto pelas mudanças físicas que ela traz consigo quanto por tudo o que ela provoca no plano emocional.
Para muitas mulheres, a perimenopausa e a menopausa coincidem com um momento de reflexão pessoal, com a sensação de que o tempo passa mais rápido e com a dúvida, às vezes paralisante, de se ainda estão a tempo de mudar as coisas.
Em entrevista concedida ao La Vanguardia, a psicóloga Begoña G. Larrauri explica as chaves para enfrentar essa etapa crucial na vida de qualquer mulher. Temas que ela aborda em seu último livro.
O fato de muitas mulheres perceberem, durante a menopausa, que lidam pior com o estresse e a ansiedade, ou que reagem com mais intensidade a situações cotidianas, tem uma explicação. Mas não é tão simples quanto atribuir tudo apenas às mudanças hormonais.
Segundo Larrauri, a chave está em como se vive essa fase, conforme explica no La Vanguardia: “Se for percebida como um obstáculo, uma ameaça ou uma fase opressiva devido aos sintomas e às mudanças que acarreta, é mais fácil que gere mal-estar e uma sensação de sobrecarga.
Por outro lado, se for entendida como um processo natural, uma mudança biológica normal e até mesmo uma oportunidade para repensar prioridades e cuidar mais de si, a experiência pode ser muito diferente”.
Não se trata de um otimismo simplista, mas de algo mais concreto: “A diferença está em como interpretamos essa situação: se a sentimos como algo que nos ultrapassa e nos coloca em perigo, o estresse aumenta; se a vivemos como um desafio superável ou até mesmo como uma fase de transformação, a resposta emocional muda completamente”.
Os sinais físicos do estresse crônico são mais fáceis de reconhecer do que parece, embora tenhamos a tendência de tratá-los isoladamente, sem nos perguntarmos o que está por trás disso.
Na entrevista, a psicóloga destaca que “um dos sinais mais frequentes são a tensão muscular e as contraturas. Basta observar como está a maioria das pessoas: as costas, os ombros, as vértebras cervicais e as lombares costumam ser os principais focos de tensão acumulada”.
E acrescenta algo que é especialmente importante: “Muitas vezes, em vez de nos perguntarmos qual é a raiz do problema, recorremos diretamente ao fisioterapeuta, ao analgésico ou ao ansiolítico, sem pararmos para pensar o que está realmente causando esse mal-estar”.
A isso somam-se os problemas digestivos, que também têm relação direta com o estresse prolongado: “Hoje sabemos perfeitamente que os níveis elevados e prolongados de cortisol afetam diretamente a microbiota intestinal e alteram todo esse equilíbrio interno”. Por isso, a especialista explica que não basta apenas aliviar o sintoma, mas também é preciso ir à raiz das situações.
A relação entre estresse e menopausa não é apenas paralela, é direta. Na entrevista, Larrauri destaca que o estresse “é um fator que intensifica tudo. Se uma mulher vive em estado de alerta, no piloto automático o dia inteiro, sem parar nunca e presa nessa síndrome da vida agitada que parece que todos nós levamos hoje em dia, é lógico que os sintomas se agravem. As ondas de calor, o cansaço, a insônia ou a confusão mental tornam-se muito mais intensos”.
E, nesse contexto, a insônia e o sono emergem como um elemento fundamental que costumamos subestimar. “Se você não compreende a real importância de algo, dificilmente vai priorizá-lo. E com o sono acontece exatamente isso”, reconhece a psicóloga.
A menopausa também costuma ser um momento de balanço pessoal e, quando bem gerida, pode ser uma fonte de alívio em vez de estresse adicional. “Ter clareza sobre as prioridades e os propósitos diminui muito o estresse”, aponta Larrauri. E, nesse sentido, é preciso parar e ouvir a si mesma, perguntando-nos se estamos fazendo coisas que nos fazem felizes no dia a dia.
Além disso, durante a entrevista, ela explica que não são necessárias grandes mudanças para notar a diferença: “Nem sempre são necessárias grandes revoluções; às vezes, bastam pequenas mudanças que devolvem sentido, calma e bem-estar”.
Talvez a mensagem mais impactante da entrevista seja aquela dirigida àqueles que sentem que já deixaram passar tempo demais. Larrauri desmonta essa crença com base no que se sabe hoje sobre o cérebro: "Antes, acreditávamos que os neurônios simplesmente se desgastavam, que se esgotavam e que, a partir de certo momento, não havia mais possibilidade de mudança. Mas hoje sabemos que não é assim.
Sabemos que a mudança é possível praticamente até o fim da vida, que o cérebro é extremamente plástico, moldável, que cria novos circuitos e que continua aprendendo constantemente".
O preconceito contra a idade, observa ele, nem sempre vem de fora: “Esse medo da idade, esse preconceito que muitas vezes impomos a nós mesmos, é profundamente prejudicial”. E conclui com algo que é fundamental para enfrentar esta fase da vida: “Se aos 50 anos você achava que era tarde, quando tiver 60 dirá que estava no auge. E quando tiver 70, verá os 60 como uma oportunidade maravilhosa que talvez tenha deixado passar por medo.
Por isso, não se trata da idade que você tem, mas de tudo o que ainda está a tempo de viver”.
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