Em meio à avalanche anual de filmes natalinos que chegam ao streaming, um título específico tem chamado atenção por um motivo pouco comum: ele tem emocionado até quem torce o nariz para tramas de fim de ano! "Natal Sob a Aurora Boreal", dirigido por Ernie Barbarash e estrelado por Jill Wagner e Jesse Hutch, usa todos os elementos clássicos do Natal - neve, romance, tradições, reconciliação - sem cair na armadilha de parecer um cartão-postal artificial.
O segredo é um enredo que não tem pressa, que valoriza pequenos gestos e que aposta, acima de tudo, em personagens lidando com memórias, escolhas e a difícil tarefa de reorganizar a própria vida.
A protagonista, Erin, é autora e historiadora - uma mulher pressionada por prazos, expectativas editoriais e, sobretudo, por um bloqueio criativo que ameaça o seu próximo livro. Em busca de ar, ela aceita passar o Natal com o pai, Doug, em Aurora, uma pequena cidade conhecida justamente por aquilo que ela mais deseja ver: a aurora boreal.
A viagem tem outro propósito: decidir o destino da casa da família, carregada de lembranças da mãe e de marcas guardadas ao longo de anos. Cada cômodo, cada objeto, cada fotografia funciona como uma cápsula de memórias que Erin tenta decifrar, ao mesmo tempo em que decide se está pronta para abrir mão do passado ou preservá-lo.
A cidade funciona como “um ambiente vivo”, com ruas decoradas, oficinas comunitárias, cafés acolhedores e trilhas nevadas que unem moradores e visitantes. A imersão de Erin nesse cotidiano mexe com ela... é entre uma feirinha comunitária, uma decoração improvisada e o som de passos na neve que ela revisita a própria identidade.
O filme sabe usar essa ambientação como metáfora para a reconciliação, para o acolhimento e para o renascimento emocional típico das narrativas de Natal.
Trevor, interpretado por Jesse Hutch, é o guia turístico da cidade e amigo da família. Mas mais do que apresentar trilhas de observação da aurora boreal, ele apresenta à protagonista uma nova forma de olhar essa cidade que ela achava conhecer. O romance entre os dois - discreto, cálido e construído em silêncios - segue o ritmo do próprio filme: nada de reviravoltas escandalosas ou grandes declarações.
O encantamento acontece nos detalhes: conversas durante caminhadas, visitas à casa da família, pausas diante de uma xícara quente no café local. A aparição da aurora boreal, ponto culminante emocional, evita exageros visuais. Ao contrário de outros filmes natalinos que apostam no espetáculo, aqui a beleza surge do silêncio - rostos iluminados por luzes dançantes, a respiração no ar frio e a sensação de que algo interno finalmente se encaixa.
Doug, vivido por Bruce Boxleitner, é a peça que conecta Erin ao passado. Seus conflitos são discretos, mas densos: reorganizar lembranças após a morte da esposa enquanto observa a filha perdida entre obrigações profissionais e cobranças internas.
Ele tenta seguir adiante, mas também teme que se afastar da casa seja como apagar parte da história da família. As conversas entre pai e filha, muitas vezes em tons baixos e recheadas de pausas significativas, são alguns dos momentos mais sensíveis do filme.
Natal Sob a Aurora Boreal não tenta reinventar o gênero e justamente por isso funciona tão bem. Ele abraça as convenções do cinema natalino, mas usa cada uma delas para construir uma narrativa emocionalmente honesta!
O desfecho evita melodrama: não há correria, não há reviravoltas tardias, não há lágrimas exageradas. O que existe é a serenidade de uma família reunida, de uma cidade viva e de uma protagonista que finalmente ganha fôlego para reorganizar suas prioridades.
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