As férias de Georgina Rodríguez, a WAG da Copa do Mundo 2026, ao lado de Cristiano Ronaldo e dos filhos movimentaram as redes sociais. Fotos compartilhadas pela influenciadora deram origem a uma onda de comentários sobre seu corpo. Entre elogios e críticas, a repercussão reacendeu o debate sobre a pressão estética e a busca pela chamada "barriga tanquinho", um padrão que continua sendo imposto até mesmo a mulheres já consideradas dentro dos ideais de beleza.
Para a psicóloga Jhoanne Hansen, especialista em saúde mental de criadores de conteúdo e integrante da Desvirtua, a comparação pode afetar a autoestima mesmo quando o internauta sabe que as imagens das redes sociais podem envolver filtros, iluminação, produção e edição.
“Mesmo sabendo racionalmente que muitas imagens são editadas, filtradas ou cuidadosamente produzidas, nas redes sociais celebridades e influenciadoras costumam ser apresentadas como pessoas reais e próximas do público, o que torna a comparação mais intensa. Quando esse padrão aparece constantemente no feed, pode aumentar a insatisfação e fazer com que a pessoa internalize expectativas difíceis ou até impossíveis de alcançar.”
O problema se intensifica porque a exposição não acontece de maneira aleatória. Os algoritmos tendem a favorecer conteúdos que geram maior engajamento, o que pode fazer determinados tipos de corpos aparecerem repetidamente na tela. Quanto mais uma estética é vista, mais familiar ela parece, criando a falsa impressão de que aquele padrão representa a maioria das pessoas.
Segundo Jhoanne, esse mecanismo interfere diretamente na percepção corporal. “Os algoritmos das redes sociais tendem a privilegiar conteúdos que geram mais engajamento. Como determinados padrões de beleza costumam receber mais curtidas, comentários e compartilhamentos, eles são exibidos com maior frequência, tornando-se mais visíveis do que outros corpos e aparências. Com a repetição constante, cria-se a impressão de que esse padrão é o mais comum, desejável ou até normal, quando, na realidade, representa apenas uma parcela da diversidade corporal existente.”
A consequência pode aparecer no comportamento. Comparações frequentes, necessidade de aprovação, vergonha do próprio corpo, sofrimento diante de fotografias e mudanças extremas na alimentação ou nos exercícios são alguns dos sinais que merecem atenção.
“Algum grau de preocupação com a aparência é natural. O problema surge quando ela passa a ocupar um espaço desproporcional na vida da pessoa e interfere no bem-estar e na rotina. Quando a preocupação com defeitos reais ou imaginários, a necessidade constante de aprovação ou as comparações provocam sofrimento persistente ou comprometem a vida social, profissional ou emocional, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde mental”, alerta a psicóloga.
A dificuldade em reproduzir o corpo de uma celebridade também pode ser interpretada de maneira equivocada. Redes sociais frequentemente mostram o resultado, mas não revelam genética, idade, histórico de saúde, rotina, alimentação, treinamento, procedimentos estéticos, acesso a profissionais, condições financeiras ou mesmo os recursos utilizados para produzir uma determinada imagem.
É nesse ponto que a pressão estética pode transformar uma diferença corporal em sensação de fracasso.
“As redes sociais frequentemente apresentam resultados como se fossem consequência apenas de esforço e disciplina, ocultando fatores como genética, condições de saúde, idade, acesso a tratamentos estéticos, recursos financeiros, edição de imagens e escolhas de enquadramento e iluminação. Quando essa realidade é invisibilizada, muitas mulheres podem interpretar a dificuldade em atingir aquele padrão como um fracasso pessoal”, explica Jhoanne.
A discussão sobre a aparência de Georgina também levanta outra questão: o que, afinal, determina um abdômen definido? Para a médica nutróloga Mariana Comério, referência em Terapia Nutricional Injetável e implantes hormonais, uma alimentação saudável, isoladamente, não determina a composição corporal.
“O que determina realmente a composição corporal é a distribuição e o cálculo calórico, a distribuição de macronutrientes e também o nível e a intensidade do exercício, que determinam o gasto calórico. Não é apenas fazer exercício e ter uma alimentação saudável. É ter isso programado estrategicamente para alcançar determinada composição corporal.”
A especialista ressalta, porém, que existe uma diferença importante entre buscar redução de gordura e perseguir uma barriga extremamente marcada. A definição muscular depende também de massa muscular, genética e características individuais.
“Existe diferença em reduzir gordura abdominal e buscar uma barriga tanquinho. Reduzir gordura é emagrecimento, mas isso não significa necessariamente que a pessoa ficará com tanquinho. O tanquinho depende da massa muscular, da construção muscular nessa região e de uma tendência genética adequada para fazer essa marcação do abdome.”
Segundo Mariana, fatores hormonais e metabólicos também interferem diretamente na composição corporal feminina. Sono inadequado, estresse, alterações hormonais, resistência insulínica e retenção de líquidos podem modificar a aparência do corpo mesmo quando a pessoa mantém hábitos considerados saudáveis.
“A mulher na menopausa, por exemplo, tende a acumular mais gordura na região abdominal. As alterações hormonais mudam o corpo mesmo com uma alimentação saudável. O sono ruim também interfere, assim como o estresse e o aumento do cortisol, que pode favorecer retenção e inflamação. Por isso, vários fatores influenciam a composição corporal além da alimentação.”
Para a nutróloga, a prioridade médica deve ser a saúde, e não a reprodução de um corpo visto nas redes sociais. O percentual de gordura extremamente baixo, inclusive, pode trazer consequências importantes para o organismo feminino.
“Quando pensamos no ponto de vista da saúde, devemos priorizar o emagrecimento e uma composição corporal adequada, independentemente do tanquinho. A definição abdominal é uma questão estética. Existe um limite de saúde e, a partir dele, estamos falando de gosto estético, autoestima e busca pessoal.”
Ela alerta que perseguir níveis muito baixos de gordura corporal pode comprometer funções importantes do organismo.
“Quando a mulher chega a um percentual de gordura muito baixo, pode não haver gordura suficiente para a produção adequada de hormônios esteroides necessários para a vida. É quando podem surgir alterações importantes, como a interrupção da menstruação, com riscos para fertilidade e outras funções do organismo.”
A saída, segundo Jhoanne, não precisa ser abandonar completamente as redes sociais. O primeiro passo é modificar a relação com o conteúdo consumido.
“Algumas estratégias eficazes incluem diversificar o feed, seguindo perfis que representem diferentes corpos, idades e estilos de vida. Também é importante deixar de seguir contas que despertam comparações constantes ou sentimentos de inadequação, limitar o tempo de exposição e desenvolver um olhar crítico sobre o conteúdo, lembrando que fotos e vídeos frequentemente envolvem filtros, edição, iluminação e poses estratégicas.”