Robert De Niro, aos 83 anos, continua sendo daqueles atores que dispensam apresentações. Com uma carreira que atravessa décadas e uma coleção de personagens difíceis de esquecer, o astro já foi mafioso, boxeador, policial, comediante e até um dos vilões mais perturbadores de sua trajetória.
E é justamente um desses personagens que solta uma frase daquelas que fazem a gente parar para pensar: "Sou como Deus e Deus é como eu; sou tão grande quanto Deus; ele tem o mesmo tamanho que eu; ele não está acima de mim nem eu estou abaixo dele".
A declaração foi destacada pelo portal espanhol OK Diario em uma publicação sobre frases marcantes associadas ao ator. Mas calma lá: apesar de a frase aparecer relacionada a Robert De Niro, ela não foi dita pelo astro em uma entrevista ou como uma declaração sobre sua própria fé. Na verdade, quem fala isso é Max Cady, personagem vivido por De Niro em "Cabo do Medo", filme de Martin Scorsese lançado em 1991.
É aí que a história fica ainda mais interessante. Max Cady é um ex-presidiário que decide se vingar do advogado Sam Bowden, interpretado por Nick Nolte. Depois de sair da prisão, ele passa a perseguir o homem que considera responsável por sua condenação e transforma a vida dele e de sua família em um verdadeiro inferno.
Em meio à obsessão e ao jogo psicológico entre os dois, Cady recorre a uma reflexão sobre Deus para falar de si mesmo. A ideia de que ele não está abaixo de Deus, assim como Deus não estaria acima dele, combina perfeitamente com a personalidade provocadora e megalomaníaca do personagem.
No próprio filme, Cady atribui a reflexão ao poeta e místico alemão Angelus Silesius, que viveu no século XVII e escreveu sobre espiritualidade e a relação entre o ser humano e o divino.
Fora do contexto de "Cabo do Medo", a frase pode até ganhar uma interpretação mais filosófica, relacionada à igualdade espiritual, à identidade e ao valor do indivíduo. Dentro do filme, porém, ela tem outro peso: serve para apresentar ainda mais claramente a visão de mundo de um homem consumido pela vingança. Colocada no devido contexto, ela revela muito mais sobre Max Cady do que sobre o próprio ator.
"Cabo do Medo" foi mais uma parceria entre De Niro e Martin Scorsese, cineasta com quem o ator construiu uma das duplas mais emblemáticas de Hollywood. Antes do thriller de 1991, os dois já haviam trabalhado juntos em clássicos como "Taxi Driver", "Touro Indomável" e "O Rei da Comédia".
Max Cady também deu a De Niro a oportunidade de mergulhar em um personagem completamente diferente. O ator aparece irreconhecível, com uma caracterização que ajudou a transformar o criminoso em uma figura ainda mais ameaçadora.
Não por acaso, o papel rendeu a De Niro uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 1992. A estatueta, naquele ano, ficou com Anthony Hopkins por "O Silêncio dos Inocentes".
Aos 83 anos, De Niro acumula uma filmografia que passeia por gêneros e personagens completamente diferentes. O ator ganhou seu primeiro Oscar pelo jovem Vito Corleone em "O Poderoso Chefão: Parte II", de 1974. Seis anos depois, levou novamente a estatueta, desta vez como Melhor Ator, por "Touro Indomável", no qual interpretou o boxeador Jake LaMotta.
Vieram ainda "Era uma Vez na América", "Os Intocáveis", "Fogo Contra Fogo", "Cassino", "O Lado Bom da Vida", "O Irlandês" e "Coringa", entre tantos outros trabalhos.
E a parceria com Scorsese continuou décadas depois: os dois voltaram a trabalhar juntos em "Assassinos da Lua das Flores", lançado em 2023.