Nesta semana, as notícia do surto de hantavírus a bordo do navio MV Hondius acendeu um alerta internacional e trouxe à tona relatos impressionantes de pessoas que sobreviveram à doença. A repercussão ganhou força após a confirmação de que ao menos três passageiros morreram depois de embarcarem em uma expedição que partiu de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, com destino à Antártida e ao Atlântico Sul.
A seguir, veja detalhes sobre o hantavírus, os depoimentos de sobreviventes que descreveram a infecção e os esclarecimentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre os riscos de transmissão e o nível de preocupação global.
O canadense Lorne Warburton contou à BBC que nunca tinha ouvido falar em hantavírus até março de 2023, quando começou a apresentar sintomas semelhantes aos da covid, como dores no corpo, dor de cabeça intensa e fadiga extrema.
Em pouco tempo, seu estado piorou drasticamente. Ele relatou que ficava "encharcado de suor" e lutava para respirar. Internado às pressas, foi conectado a aparelhos de suporte à vida e permaneceu cerca de três semanas no hospital.
"O nível de doença e enfermidade pelo qual passei foi um inferno na terra. Foi uma tortura passar por tudo isso e conseguir me recuperar", afirmou.
Mesmo após deixar o hospital, a recuperação foi lenta. Segundo Lorne, levou um ano e meio para recuperar totalmente a força física. Como efeito colateral, ele desenvolveu fibrilação atrial, um distúrbio do ritmo cardíaco, e precisa tomar medicamentos diariamente.
Na Alemanha, Christian Ege também relatou à BBC que apresentou sintomas inicialmente parecidos com uma "gripe estranha", acompanhada de vômitos, tontura e mal-estar.
O quadro evoluiu para insuficiência renal e sepse, exigindo internação em uma unidade de terapia intensiva e sessões de diálise.
"Os rins acabaram se recuperando normalmente, mas a coincidência de uma escalada bacteriana e viral ao mesmo tempo foi, sem dúvida, algo bastante preocupante por alguns dias", explicou.
Após cerca de quatro meses, Christian afirmou ter retomado a rotina sem danos permanentes significativos, embora tenha descrito a recuperação como mais demorada e desgastante do que imaginava.
Segundo informações do UOL, autoridades de saúde de diversos países estão tentando localizar pelo menos 29 passageiros que desembarcaram do MV Hondius em Santa Helena, no Atlântico Sul, antes da confirmação oficial do surto. Os viajantes, de pelo menos 12 nacionalidades, seguiram para países como Estados Unidos, Reino Unido, Suíça, Singapura, Dinamarca e Austrália.
A cepa identificada é o vírus Andes, uma variante rara encontrada na América do Sul e considerada a única capaz de apresentar transmissão limitada entre humanos em contatos próximos e prolongados.
Apesar da preocupação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçou que o risco global permanece baixo. "Isto não é o começo de uma epidemia. Isto não é o começo de uma pandemia. Isto não é covid", declarou Maria Van Kerkhove, em fala reproduzida pelo The Guardian.
O hantavírus é transmitido principalmente por roedores infectados. A contaminação ocorre por contato com urina, fezes ou saliva desses animais, especialmente em locais fechados e mal ventilados.
A infecção pode provocar a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, doença grave que afeta pulmões e coração e pode ter taxa de mortalidade de até 50%, segundo a OMS. Atualmente, não existe vacina aprovada nem tratamento antiviral específico. O tratamento é baseado em suporte intensivo, principalmente respiratório e cardiovascular.
Depois de enfrentar semanas na UTI, Lorne Warburton afirma que voltou ao trabalho e à rotina com os filhos, mas com uma nova perspectiva sobre a vida.
"Você não encara mais as coisas como algo dado", disse.
Segundo ele, até um simples gole de água fresca após duas semanas sem ingerir líquidos foi uma das melhores sensações que já experimentou.
"Eu aprecio até mesmo os menores detalhes que a maioria das pessoas nem percebe no dia a dia."
Em meio ao susto causado pelo surto no MV Hondius, os relatos de Lorne e Christian mostram que, embora rara, a doença pode deixar marcas profundas e transformar para sempre a forma como seus sobreviventes enxergam a vida.