Mais de 35 anos depois de viver o marcante Ivan Meireles na primeira versão de "Vale Tudo", Antonio Fagundes se posicionou de forma contundente sobre a nova investida da Globo na trama icônica de 1988. Em entrevista ao podcast "Novelão", da coluna Play, do jornal O Globo, o ator classificou como "uma temeridade" a decisão da emissora de refazer novelas que continuam vivas na memória (e no streaming) do público.
“Você fazer o registro de uma obra icônica, que funcionou em todos os seus detalhes, com o registro dela ainda na sua mão, é uma temeridade. Você está correndo um risco de errar muito grande”, disparou o ator, que se tornou um dos símbolos da produção original ao lado de Regina Duarte, Gloria Pires e Beatriz Segall.
Segundo Fagundes, a ideia de produzir remakes não é, por si só, um erro. O problema, para ele, é quando se refaz algo que continua amplamente acessível ao público. O ator citou como exemplos positivos "A Viagem" (1994), que resgatou uma história da TV Tupi cujos registros se perderam com o fim da emissora, e Pantanal (2022), originária da extinta Manchete.
“A mesma lógica se aplicou a 'Pantanal', já que a primeira versão da novela também não estava amplamente acessível ao público”, explicou. Na contramão desses casos, "Vale Tudo" permanece disponível no Globoplay, somando revisitas e conquistando novas gerações. “O público já assistiu cinco, seis, sete vezes. Então, é um grande risco”, alertou o artista.
Fagundes também mencionou o caso recente de "Renascer", cujo remake estreou em 2024 e, segundo ele, sofreu com a comparação direta com a versão original, de 1993. “Por mais bem-feito que tenha sido, tem um registro icônico que ficou na sua memória e no qual você pode voltar”, analisou.
Essa mesma sombra pode atingir "Vale Tudo", cuja nova versão, escrita por Manuela Dias, estreou na Globo no dia 31 de março e, desde então, vem acumulando diversas críticas.
Lançada originalmente em 1988, "Vale Tudo" se tornou um marco da teledramaturgia ao discutir ética, corrupção e desigualdade social em plena era Collor. O sucesso da novela foi tão grande que o nome da protagonista, Raquel (vivida na época por Regina Duarte), se transformou em símbolo de integridade, enquanto sua filha ambiciosa, Maria de Fátima (Gloria Pires), virou sinônimo de golpe e oportunismo. “É uma obra que funcionou em todos os seus detalhes. Refazê-la com tudo ainda à disposição do público é correr um risco desnecessário”, concluiu.