Série-símbolo do SBT, "Chaves" ocupa a programação da emissora paulista há 41 anos praticamente de forma ininterrupta. Escalada em cima da hora para substituir o especial de Natal de Zezé Di Camargo após discurso político e polêmico do sertanejo, a produção estrelada por Roberto Gómez Bolaños (1929-2014) já foi acusada de provocar no Brasil uma grande tragédia na vida real envolvendo uma criança de 7 anos, que acabou morrendo.
Essa fatalidade ocorreu no carnaval de 1994 na cidade de Canindé, no Ceará, distante quase 2h da capital, Fortaleza. Na ocasião, o menor P.V. S. tentou reproduzir uma cena que havia visto no seriado "Chaves", que desembarcara no Brasil dez anos antes meio ao acaso.
Nela, o menino do barril, seu Madruga e senhor Barriga, entre outros, tomavam um choque e começavam a tremer. "O menino pegou um fio velho da enceradeira, imitou a cena e caiu morto. Seu pai, o radialista P.S.N., ainda levou-o ao hospital, mas ele chegou sem vida", relatou o "Jornal do Brasil" do dia 12, 11 dias após a fatalidade..
Após a tragédia, a mãe da criança escreveu uma carta e a enviou a Silvio Santos (1930-2024). "Ele era filho único da família e eu o amava muito. Agora minha vida mudou de sentido e acho que vou enlouquecer", afirmou M.N.B.S., explicando o porque de enviar a mensagem ao fundador do SBT.
"Não quero que isso venha a ocorrer com outras famílias, porque a dor que estou sentindo será minha companheira para o resto da vida", disse ela na carta. Com a tragédia, os colegas de escola de P.V. decidiram que a carteira do garoto na sala de aula ficaria vazia dali para frente.
Por sua vez, a diretora do colégio classificou a programação infantil do canal de "muito dirigida à violência" e propôs um boicote. Naquele 1º de fevereiro de 1994, "Chaves" ocupava a faixa das 13h e a programação reunia ainda Vovó Mafalda, Eliana, Mara Maravilha (todos pela manhã) e Angélica (à tarde, quando também ia ao ar reprise da "TV Animal").
Na época diretor do SBT, Ademar Dutra afastou qualquer culpa do SBT pela tragédia. "É um absurdo querer culpar o programa e o SBT. Não há violência alguma nos seus personagens. É um pastelão, uma espécie de Trapalhões mexicano, com um clima poético e ingênuo", apontou sobre o seriado que se tornaria pedra no sapato de Ana Maria Braga em 1999.
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