[ALERTA: o texto a seguir aborda assuntos relacionados à saúde mental e ao suicídio. Caso a matéria desperte gatilhos ou você conheça alguém que precise de ajuda, procure o Centro de Valorização à Vida (ligue 188)]
Matheus Nachtergaele nunca separou completamente a arte da vida. No caso dele, as duas coisas caminham juntas desde o início... desde antes da memória, desde um trauma que só ganhou nome muitos anos depois. Foi aos 16 anos que o ator soube que a mãe biológica, a poetisa e musicista Maria Cecília Nachtergaele, havia tirado a própria vida quando ele tinha apenas três meses de idade.
O impacto dessa revelação não apenas reorganizou sua história pessoal, como ajudou a moldar o artista inquieto, sensível e profundamente autoral que o público brasileiro conhece há décadas - e que brilhou como Poliana em "Vale Tudo" (2025)!
Ao longo dos anos, Matheus falou sobre esse assunto, sempre com cuidado, sem espetáculo da dor. Ele revelou como o contato tardio com a obra da mãe - cartas, poemas, fragmentos de uma voz interrompida - acabou se transformando em motor criativo, matéria-prima artística e também em um caminho de elaboração do luto.
Em entrevista ao Extra, em 2020, Matheus falou com emoção sobre a ausência materna e sobre o modo como essa falta o acompanhou ao longo da vida, sem jamais defini-lo por completo. O ator explicou que cresceu cercado por figuras femininas que ajudaram a preencher esse vazio, especialmente a madrasta, a quem chama de mãe.
“Uma mãe perdida é uma coisa muito forte, que te marca muito, mas não te define como todo ou para sempre. Sou um órfão típico, um cara sem mãe que sobreviveu à falta dela com a ajuda de mães postiças. Tive uma principal, minha madrasta Carmem, que eu chamo de mãe e casou com meu pai quando eu tinha 1 ano e meio. Foi quem me ensinou tudo, com quem eu tive as maiores brigas e os abraços mais inesquecíveis”, afirmou o ator, emocionado.
Na mesma entrevista, Matheus fez questão de reconhecer o papel simbólico e artístico da mãe biológica em sua trajetória. Foi ali que ele verbalizou, de forma direta, algo que atravessa sua obra:
“Cecília, minha mãe biológica e também minha mãe artística. Muito por causa dela eu me envolvi com artes, virei ator. Ela era uma poetisa e se matou quando eu era bebê. Por causa dela me envolvi com poesia, literatura e música. Fui perseguindo minha mãe através de coisas que ela gostava, foi uma boa professora".
O ator contou ainda que só teve contato direto com a voz da mãe quando o pai lhe entregou, na adolescência, uma pasta com poemas escritos por Maria Cecília, um gesto que mudou tudo. Ao Gshow, também em 2020, ele relembrou o momento:
"Eu fiquei muito espantado, muito triste, muito chocado e muito aliviado por saber, finalmente, o que tinha acontecido com ela. Nessa mesma noite ele me entregou a pasta azul com os poemas. Eu fui pra beira da praia, passei a noite ali, amanheci ali, lendo os poemas, procurando pela primeira vez ouvir as palavras da minha mãe e acho que naquele momento eu me tornei o artista que eu sou"
Esse encontro tardio com a escrita da mãe não ficou restrito ao campo íntimo. Anos depois, ele se transformaria em cena, palavra dita, corpo em estado de escuta. Ainda ao Gshow, Matheus detalhou o processo de maturação que o levou a criar o espetáculo "Concerto do Desejo" e, posteriormente, "Desconcerto", uma releitura surgida durante a pandemia.
Na conversa com o portal, o ator revelou que a decisão de levar os poemas ao palco levou anos para amadurecer.
“Eu demorei muitos anos para montar no palco os poemas da minha mãe. Há muito tempo eu pensava em como fazer isso e cheguei até a mostrar os 30 poemas que ela deixou, todos passados à limpo em uma máquina Olivetti, e guardados em uma pastinha de elástico azul, pra algumas atrizes pensando em dirigi-las”, contou.
O ponto de virada veio quase por acaso, a partir de um convite inesperado:
“O Festival de Teatro de Ouro Preto e Mariana me convidou pra fazer alguma coisa que eu tivesse na manga. Eu não tinha nada… Respondi que podia ler os poemas da minha mãe. Eles toparam e a aventura começou".
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