A ficção científica domina os cinemas em 2026. Entre “Star Wars: O Mandaloriano e Grogu”, “Duna 3” e “Vingadores: Doomsday”, há opções para todos os gostos e estilos.
Ainda que os filmes de Denis Villeneuve e dos irmãos Russo devam alcançar bons resultados nas bilheterias, é difícil, no entanto, imaginar que eles consigam uma marca maior do que “Project Hail Mary” — lançado no Brasil como “Devoradores de Estrelas”.
Lançada em 18 de março, a adaptação do livro de Andy Weir — autor de “Perdido em Marte” —, dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, já é considerada um dos melhores filmes do ano. Com uma média de 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, a produção arrecadou US$ 683,8 milhões nas bilheterias mundiais.
A trama acompanha Ryland Grace (Ryan Gosling), um ex-professor de ciências que, contra a própria vontade, acaba se tornando astronauta. Ele desperta sozinho a bordo de uma nave espacial, sem qualquer lembrança de quem é ou do motivo de estar ali.
Aos poucos, descobre que foi enviado para um ponto a 12 anos-luz da Terra com a missão de salvar a humanidade, enquanto o Sol e outras estrelas estão morrendo. Diante desse cenário desesperador, ele precisa confiar em seus conhecimentos científicos, em sua engenhosidade e em um aliado improvável.
O sucesso do filme não chega a ser uma surpresa. “Devoradores de Estrelas” reúne uma direção segura da dupla Phil Lord e Christopher Miller, uma série de ideias criativas impressionantes, uma atuação precisa de Ryan Gosling — talvez a melhor de sua carreira — e ainda apresenta um alienígena inesquecível: Rocky.
Mas há outro fator que contribuiu para o resultado: a sensibilidade dos diretores na construção do ritmo da narrativa.
Não é novidade que os grandes blockbusters de hoje em dia costumam apostar em durações cada vez mais longas. “Devoradores de Estrelas”, porém, seguiu o caminho oposto: teve 30 minutos cortados da versão final. E não foram cenas quaisquer que ficaram de fora.
Em entrevista à Interview Magazine, Phil Lord e Christopher Miller revelaram que a sequência inicial, em que Ryland desperta e começa a compreender onde está e qual é sua missão, originalmente era muito mais extensa.
"No fim, condensamos tudo para caber durante uma música de Kris Kristofferson", explicaram os diretores. "Havia cerca de meia hora de filmagens em que ele entrava em pânico, se embriagava e ficava completamente incapaz de fazer qualquer coisa. Gravamos muitas cenas mostrando o personagem desmoronando emocionalmente."
A revelação levanta uma questão curiosa: por que filmar tantas cenas para, no fim, deixá-las de fora da versão final? A resposta é simples: os diretores não queriam prejudicar o filme tornando-o excessivamente melodramático e repetitivo.
"O público das sessões-teste teve muita dificuldade com essas cenas. Um personagem pode ficar triste por alguns minutos durante um filme, mas, depois disso, a história precisa seguir em frente. Você não é o primeiro jornalista a dizer que essa sequência tem um ar bem 'à moda antiga'. Será que os filmes ficaram cruéis demais?"
Para Lord e Miller, o foco da história sempre esteve em outro lugar. Embora fosse importante mostrar o sofrimento de Ryland — interpretado por Ryan Gosling — para criar empatia com o público, essa dor nunca foi pensada como o verdadeiro centro da narrativa.
"Queríamos realmente explorar sua vulnerabilidade, seu medo e sua fragilidade. Ele é um microbiologista brilhante, mas não é um especialista em tudo, nem o tipo de pessoa que entraria correndo em um prédio em chamas para salvar um grupo de gatinhos. Queríamos que ele despertasse apavorado, precisasse enfrentar seus medos e, aos poucos, se transformasse em alguém corajoso e heroico. É justamente por isso que o público consegue se identificar com ele."
Foi uma escolha consciente — e que se mostrou acertada. Para quem quiser conferir o título “Devoradores de Estrelas” está disponível no Amazon Prime Video.