Elenco reunido não quer briga com ninguém, ou pelo menos não com uma colega de profissão. A reação de atores de ‘Quem Ama Cuida’ e de outros nomes da arte em defesa de Duda Almeida, após a crítica da colunista Anna Luiza Santiago, da Coluna Play, do jornal O Globo, me chamou atenção justamente por mostrar como diferentes artistas enxergam o próprio ofício.
Duda, aos 30 anos e ainda no início da carreira, vinha relativamente apagada na novela. Até que Andreia ganhou uma cena de enorme repercussão em semana explosiva da novela. A jovem foi massacrada por Pilar (Isabel Teixeira) durante o noivado com Rafael (João Vitor Silva).
Sim, Andreia era uma golpista que tentou se dar bem ao se envolver com um homem rico, mas também deixou claro que havia sentimento verdadeiro naquela relação.
A sequência exigia muito mesmo. Reunia boa parte do elenco, acontecia em plano-sequência e dependia de uma movimentação milimetricamente pensada pela diretora Amora Mautner.
Ficou evidente que não é qualquer ator que conseguiria atravessar uma situação dessas com a maior naturalidade. Na minha opinião, Duda entregou o que a cena pedia... e muito bem.
Por isso, me incomodou a crítica quando percebi que ela não vinha acompanhada de uma justificativa concreta. Criticar uma atuação faz parte do jornalismo cultura, mas é preciso apontar o que de fato não funcionou.
Se a jornalista experiente apontasse falta de gestos, de tom de voz, de uma reação exagerada ou até a ausência, seria válido avaliarmos a atuação da atriz. Sem isso, a crítica virou apenas uma sentença vazia.
Tatá Werneck, a Brigitte da novela, foi uma das primeiras a se manifestar: “Ela recebeu uma responsabilidade grande e deu conta demais!”, escreveu, destacando a dificuldade da sequência. Depois, resumiu a questão com uma pergunta poderosa: “E zero pra uma pessoa ter recebido oportunidade?”
Tatiana Tibúrcio foi ainda mais longe ao levantar a possibilidade de um recorte racial: “O que difere uma atriz negra de qualquer outra atriz é a oportunidade”, escreveu, citando uma declaração de Viola Davis feita em 2015.
É aí que, para mim, a discussão fica maior do que Duda. Será que a mesma cobrança seria feita da mesma maneira caso fosse uma atriz branca?
Não tenho como afirmar isso, e seria irresponsável transformar uma dúvida em acusação. Mas é uma pergunta legítima diante da discussão levantada pelo próprio elenco.
Também não acredito nessa ideia de que um ator precisa chegar pronto para merecer uma cena grande. Quem acompanha televisão sabe que muitas atrizes e atores hoje consagrados tiveram trabalhos iniciais irregulares.
Em muitos casos, outros já chegaram brilhando, enquanto alguns estudaram por anos antes de aparecer na TV. Logo, quem se sustenta na teledramatugia, na maioria das vezes, aprendeu, errou, ouviu e se aprimorou.
O que Duda recebeu foi uma oportunidade. E, justamente por isso, acho que ela deveria ser avaliada pelo que fez naquela cena, não pelo estágio de sua carreira.
No fim, a defesa do elenco talvez diga tanto sobre Duda quanto sobre os próprios artistas que decidiram falar. Mais do que comprar uma briga, eles defenderam a ideia de que oportunidade também faz parte da formação de um ator.
E, para mim, uma crítica vazia, sem apontar concretamente o que teria dado errado, acaba dizendo muito menos sobre a atuação de Duda do que sobre quem decidiu avaliá-la dessa maneira.