A chegada da aposentadoria, muito comum no grupo da terceira idade, pode ser amada por uns, mas também odiada por outros. Grande parte do público sente receio em perder a sua identidade, ocasionando impacto direto no cérebro e na saúde mental.
Passo por essa situação aqui em casa com minha mãe, que após anos de trabalho, sente medo de começar uma nova rotina. Enquanto alguns indivíduos torcem bastante por esse momento chegar, tirando o passaporte da bolsa e dando início à viagens de tirar o fôlego pelo mundo, outros ficam mais resistentes pelo novo estilo de vida.
Os costumes mudam completamente, já que os hábitos e as rotinas que seguia anteriormente no trabalho, são interrompidos de forma repentina. Essa situação pôde ser vista com o personagem de Lineu (Marco Nanini) no seriado famoso "A Grande Família", da TV Globo.
Neste programa de humor repleto de curiosidades, Lineu decide se aposentar da vigilância sanitária, após mais de 35 anos na ativa. Dessa forma, acaba se sentindo até meio perdido com o tempo livre, decidindo abrir um pet shop.
Assim, a aposentadoria está além daquilo que se construiu anteriormente. Ela mexe consideravelmente com o cérebro, já que muitas pessoas perdem aquele senso de identidade e de valor, construídos ao longo dos anos.
Sendo assim, a psicologia, além de tentar explicar a razão pela qual muitos idosos sentem solidão, também investiga o processo de aposentadoria e o impacto causado na vida das pessoas. A psicóloga Ana Galán trouxe uma análise durante uma entrevista no periódico espanhol La Vanguardia.
Para a profissional, a autoestima é diretamente impactada:
"Ao se aposentar, muitas pessoas sentem que perdem parte de sua identidade e experimentam sentimentos de inutilidade", contou a especialista.
O hábito de trabalhar, além de garantir a renda no final do mês, trabalha o cérebro, trazendo reconhecimento para aquele determinado indivíduo. E quando ele perde, passa a buscar meios de se reinventar. Para muitos, o resultado não vem de maneira simples, muito menos de imediato.
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Segundo a Drª. Ana, as épocas festivas, como o Natal e Ano Novo, que intensificam o valor das relações familiares, deixam o sentimento de "deslocamento" ainda mais em evidência. Isso é algo comum, como consequência das mudanças que esse grupo de pessoas passou ao longo da vida.
Eu mesma funciono muito bem com uma rotina. De acordo com Galán, os hábitos diários devem ser preservados, já que "a rotina funciona como um apoio emocional silencioso", disse. Logo, se os hábitos antigos são interrompidos de forma abrupta, as pessoas tendem a ficar de mau humor ou rabugentas.
Assim, é importante manter os costumes e horários básicos que tinha antigamente, como o momento de acordar, de almoçar e jantar, além de continuar em contato com seus amigos e colegas, para elevar o humor.
Essas situações mais previsíveis acabam deixando a pessoa com uma sensação maior de controle: "Se levantar em um horário semelhante, sair ao ar livre sob a luz natural, movimentar-se um pouco a cada dia ou ter uma breve conversa agendada pode mudar muito a forma como você vivencia o dia", discorreu ela ao jornal.
Aqui neste caso a mente também é protagonista, pois as emoções podem ficar meio turbulentas. A tristeza não necessariamente indica fraqueza, muito menos a nostalgia. As comparações com vivências passadas podem surgir, além daquela sensação de vazio:
"Essas mudanças refletem um processo de adaptação a uma nova fase da vida, não uma fraqueza pessoal", disse Galán, enfática. E se as pessoas conseguirem reconhecer isso, já é uma grande ajuda, saindo desse momento tenso de isolamento.
Além disso, sabe aquela sensação de "não pertencimento"? Para a psicóloga, isso está relacionado à mudança de identidade.
A psicóloga Ana Galán ressalta que as pessoas precisam ter paciência consigo mesmas, além de colocarem em suas vidas algumas atividades e rotinas simples, que atribuam um real significado de estrutura:
"O bem-estar não vem da pena, mas de recuperar o próprio lugar na vida cotidiana", explicou, para evitar aquela sensação de vazio. Sendo assim, se você conhece alguém que está passando por essa situação, tente auxiliar de maneira concreta, ouvindo e dando importância e utilidade a ela, de acordo com Galán:
"O importante é estar disponível sem ser intrusivo e manter contato por mais de um dia", sugere. Isso pode fazer toda a diferença.
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