Viktor Frankl, sua esposa, seus pais e seu irmão foram enviados para campos de concentração. O austríaco passou por quatro deles entre 1942 e 1945. Apenas ele sobreviveu quando a Segunda Guerra Mundial terminou e, de sua experiência, nasceu “Em Busca de Sentido”.
Parece incrível que de uma experiência tão horrível como o Holocausto possa ter surgido uma das obras mais inspiradoras da história. Tanto que os especialistas a recomendam para superar momentos difíceis.
O psiquiatra, escritor e filósofo austríaco escreveu o livro depois de sentir em primeira mão o que significa viver uma existência desprovida de tudo, exceto da própria existência. Apesar de todo o sofrimento, ele compreendeu que a vida vale a pena.
Há um parágrafo especialmente revelador sobre o sucesso e a felicidade em seu livro que diz o seguinte:
“Não busque o sucesso. Quanto mais você se obsessar com ele e o transformar em seu objetivo, mais você o perderá. Pois o sucesso, assim como a felicidade, não se busca; ele deve surgir naturalmente, e só o faz como consequência não intencional da dedicação pessoal a uma causa maior do que a si mesmo ou como resultado da entrega a outra pessoa. A felicidade deve chegar, e o mesmo ocorre com o sucesso: é preciso deixar que aconteça sem se preocupar com ele. Quero que você ouça o que sua consciência lhe dita e que a coloque em prática da melhor maneira possível. Então você verá que, a longo prazo — a longo prazo, insisto! —, o sucesso o seguirá precisamente porque você havia se esquecido de pensar nele”.
É por isso que a paráfrase atribuída a Frankl, segundo a qual “a felicidade não pode ser perseguida; deve surgir como um efeito colateral da dedicação a uma causa maior do que a própria pessoa”, é uma das mais populares do psiquiatra.
Ela se relaciona diretamente com a logoterapia que ele fundou posteriormente, uma forma de intervenção psicológica desenvolvida a partir da filosofia existencialista.
Nela, ele afirma que a motivação primária do ser humano não é o prazer (como dizia Sigmund Freud) nem o poder (como defendia Alfred Adler), mas a vontade de sentido, ou seja, a busca de um propósito que justifique nossa própria existência.
O curioso é que buscamos a felicidade quase por instinto, movidos por uma ordem que nem sabemos que recebemos: seja feliz. A cultura atual nos impõe a felicidade, como afirmava o filósofo Byung-Chul Han, que resumia isso na frase “a nova fórmula de dominação é ‘seja feliz’”.
O sistema tenta nos convencer de que a felicidade está no consumo, como bem explicava o também filósofo Zygmunt Bauman. E, ao não conseguirmos alcançá-la, porque esse não é o caminho para sermos felizes, ficamos frustrados e isso gera ansiedade.
Quanto mais buscamos a felicidade, mais ela se afasta. “Quanto mais valorizamos e ansiamos pela felicidade, mais ela se torna indescritível”, explicava Tal Ben Shahar, professor de psicologia positiva da Universidade de Harvard, em seu livro “A Busca da Felicidade”.
O que vivemos ao fazer isso é o paradoxo da felicidade: tentar ser felizes nos torna menos felizes. Para Frankl, a maneira de ser feliz é buscar um sentido para nossa vida, e a felicidade surgirá como consequência, não como destino. Mas não é só isso. Essa busca por sentido é o que nos salva nas adversidades.
Em seu livro, ele descreve que, durante seu cativeiro, observou que os prisioneiros que mantinham um sentido ou propósito, como a esperança de se reencontrar com suas famílias ou o fato de ajudar os outros, eram mais capazes de sobreviver.
Essa atitude é, de fato, a última das liberdades do ser humano, segundo Frankl, que afirmava que “tudo pode ser tirado do homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas, a escolha da própria atitude diante de qualquer tipo de circunstância, a escolha do próprio caminho”.
Vindas de um homem a quem tiraram absolutamente tudo, menos a vida, essas palavras ganham um sentido ainda maior e mais profundo.