O influenciador Vagner Macedo ganhou manchetes na imprensa por tentar emplacar no Guiness Book, o livro dos recordes, como o “maior corno do mundo”. No ano passado, ele afirmava que sua esposa, Bella Mantovani, já havia transado mais de 100 vezes com outros homens. Os dois estão juntos há 17 anos.
"O corno foi exaltado a vida inteira, a música sertaneja prega isso, a gente não precisa ter vergonha, seja você mesmo com seu estilo de vida, sem medo de ser feliz", declarou Vagner, em entrevista ao portal UOL.
O prazer em ver o parceiro na cama com outra pessoa tem nome: é o fetiche “cuckold”. A palavra faz referência à ave cuco, que coloca os ovos em ninhos de outras espécies, que criam filhotes como se fossem seus.
Apesar de ser feito sob consentimento de ambas as partes, o fetiche ainda desperta preconceito. A prova disso é o recente ataque que Vagner sofreu. Ele teve seu carro pichado com as palavras “corno” e “boi” no interior de São Paulo.
“A gente sabe que o que a gente vive chama atenção, mas isso não dá o direito de ninguém fazer uma coisa dessas, nosso relacionamento é uma escolha nossa e não tem nada a ver com invadir ou atacar o que é nosso”, lamentou Bella, em nota enviada à imprensa.
A prática tem mais adeptos do que se possa imaginar. Só na plataforma Sexlog, que se apresenta como a maior rede social de sexo e swing do Brasil, 592 mil usuários declararam o cuckold como uma de suas preferências, o que representa 32% de todos os participantes da plataforma.
Mas, afinal, a Psicologia pode explicar um fetiche tido como inusitado ou até repugnante por parte da população? Para discutir questões relacionadas ao cuckold, o Purepeople convidou José Yuri de Souza Feijão, psicólogo clínico com foco em Psicanálise (CRP 05/68921). Confira a seguir!
Quando algo culturalmente entendido como dor vira fonte de excitação, geralmente não se trata de gostar da dor real da traição, mas de uma ressignificação da ideia de transgressão. Em muitos casos, o prazer está ligado à fantasia de risco, surpresa, exclusividade, poder, controle ou intensidade emocional. A pessoa não necessariamente deseja ser ferida, isso provavelmente não estaria em discussão, ela pode se excitar com a quebra simbólica de uma norma quando isso acontece em um contexto consensual e controlado.
Em tese, sim, o “proibido” costuma aumentar a carga emocional e a sensação de novidade. Psicologicamente, o que é raro, secreto ou socialmente interditado pode ganhar mais valor subjetivo. Mas isso não explica tudo sozinho. Muitas vezes, o fascínio vem da mistura entre tabu, adrenalina, fantasia e sensação de escapar do cotidiano. Algo semelhante pode ser visto em momentos em que jogos de dominação e submissão acontecem, como em sessões de BDSM
Nem sempre um fetiche precisa ter uma origem “profunda” ou traumática. Às vezes, ele surge por associação, repetição, curiosidade, aprendizado sexual e reforço do prazer. Em outros casos, pode sim estar ligado a vivências emocionais, necessidades simbólicas ou experiências anteriores. A Psicologia ajuda a “entender” e aceitar essas formas de excitação, mas não deve presumir que todo fetiche é sinal de conflito interno.
O consentimento é indispensável, mas sozinho nem sempre basta. Para ser saudável, também ajudam a comunicação clara, segurança emocional, ausência de coerção, limites bem definidos, capacidade de revisar acordos e respeito ao bem-estar de ambos. Uma dinâmica pode ser consensual e ainda assim gerar sofrimento no “pós” se houver culpa intensa, pressão, medo de perder o parceiro ou falta de acolhimento emocional.
Alguns sinais comuns são: concordância sem entusiasmo, respostas ambíguas, medo de dizer “não”, sensação de obrigação, arrependimento frequente depois, ou a pessoa só topar para não decepcionar o outro. Em geral, quando existe alívio maior do que prazer, ou quando o “sim” parece vir da ansiedade e não do desejo, vale interromper e conversar de forma honesta.
Se houver diálogo e confiança, a dinâmica pode até aumentar intimidade, cumplicidade e abertura sexual. Mas, se houver segredo, desigualdade ou pressão, pode gerar desconfiança, insegurança, ressentimento e desgaste emocional. O efeito no vínculo depende menos da prática em si e muito mais de como ela é negociada e vivida.
As duas coisas pesam. Fantasias são em parte individuais, uma vez que colocamos nossas subjetividade e vivências no que fantasiamos, mas também são moldadas por cultura, mídia, internet, pornografia, discursos sobre desejo e normas sociais. O que uma geração considera excêntrico pode, em outra, ser visto como mais comum. Um exemplo é a abertura de alguns grupos sociais à fenômenos como o Chemsex, a cultura rubber, BDSM, entre outras. A fantasia sexual não nasce no “vácuo”, ela precisa dialogar com o ambiente simbólico em que a pessoa cresce.
Isso pode indicar uma relação baseada em maior segurança emocional, confiança, autonomia e apego mais estável. Nem todo casal vive ciúme com frequência, e isso não significa falta de amor. Em alguns casos, a ausência desses sentimentos mostra maturidade e vínculo saudável, em outros, pode refletir distanciamento emocional e até mesmo mostrar questões projetivas. O ponto central é entender se existe tranquilidade genuína ou indiferença.