Ao mesmo tempo que a trajetória meteórica de Lamine Yamal encanta o mundo do futebol, outros olhares se voltam para temas envolvendo a saúde mental das jovens promessas do esporte. Aos 19 anos e já campeão mundial pela Espanha na última Copa, o atacante do Barcelona encara desde a popularidade às questões ligadas à economia, que acabam envolvendo ainda as fases do seu próprio desenvolvimento.
Na visão da psicóloga Lara Ferreiro, há um risco real em relação àquelas pessoas que antes mesmo de moldarem a própria personalidade chegam ao topo de uma carreira. E nesse caso, a especialista se volta para os riscos psicologos de grau relevante.
Para a profissional, ocorre uma "adultização precoce" - ou seja, o jovem passa a ter responsabilidades como se fosse um adulto embora a preparação emocional estar incompleta. Se tem aí a transformação do sonho em obrigação.
Pesquisa elaborada por Lara aponta que aproximadamente 60% dos atletas da elite são perfeccionistas desadaptativo. Em outras palavras, acreditam que um erro mínio levará à ruína da carreira. As consequências passam a ser frequentes e vão desde ansiedade à insônia passando por crises de pânico ou o esgotamento ao máximo.
Ser famoso desde cedo acaba causando um impacto na construção do "eu": por isso, Lara adverte que há a possibilidade da pessoa deixar em um canto o lado humano e se transformar em personagem. No caso de Yamal, bem como o de outros astros do esporte, o desempenho exigido está na faixa do impecável, o que acaba por anular a espontaneidade típica dos adolescentes.
O jovem esportista tem que treinar, viajar e realizar outras atividades profissionais em uma carga de 10 a 15 horas acima da cumprida por outros adolescentes. Dessa forma, as vivências sociais típicas da idade não são vividas e o isolamento emocional em grau elevado acontece.
Para a psicóloga, a fama até é capaz de encher estádios, contudo quando falamos de ocupar o coração da própria pessoa há o fracasso. Em termos econômicos, há um outro grau igualmente complexo e conhecido por "síndrome da riqueza repentina".
O dinheiro traz aquela felicidade momentânea e que tem duração máxima de três meses. Depois, os vínculos afetivos passam a ser questionados se são ou não verdadeiros. Os jogadores de futebol passam a se perguntar com frequência se aqueles ao seu redor lhe dão valor pelo que são ou por serem famosos.
Pegando especificamente Lamine Yamal, a mídia vira sua atenção para seus relacionamentos, levando o próprio atleta à vulnerabilidade em termos de críticas e rumores seguidos.
Se formos analisar de forma científica, a conclusão não tira dúvidas: nessa idade, o cérebro humano ainda está maturando e o córtex pré-frontal - onde os impulsos são controlados - só chega à maturidade lá pelos 25 anos. E é por isso que atitudes impulsivas são ao mesmo tempo previsíveis; mesmo assim, a opinião pública acabe dando uma punição desmedida para jovens astros.
No caso da família, embora haja o suporte protetor pode existir ao mesmo tempo a "sobreidentificação parental", onde os filhos se tornam a fonte de depósito dos sonhos dos pais. Aí podemos ter a chamada "percepção de intocabilidade", levando à traços de narcisismo ou que as normas da coletividade não são aplicadas aos jovens famosos.
E a tudo isso se soma o futuro dos jogadores, mais um desafio a ser enfrentado e que para a psicologia é a "síndome do aposentado VIP". Nada mais é do que o momento de crise emocional enfrentado por quem deixa de ser reconhecido e de ter adrenalina quando se aposenta.
Para Lara, o maior desafio de Lamine Yamal tem é construir sua identidade fora do futebol. A verdadeira vitória emocional obriga que ela compreenda o valor que tem não é dependente de um seguido brilho visto por todo o mundo.