"A data foi outra", "não é assim que se fala", "isso está errado". Esetes são alguns exemplos exemplos de falas ditas por aqueles tipos de pessoas que não são capazes de permanecerem em silêncio diante de erro que não foi delas. Elas não levam em conta nem quem cometeu o erro e tampouco a situação onde estão.
Elas podem corrigir desde o sogro, em um encontro de família, ao parceiro, chegando até ao próprio chefe. A impressão é todas as coisas precisam estar absurdamente transparantes em todo tempo. "Que pedante!", é uma das frases que podemos dizer a nós mesmos diante de tanta correção. Só que as coisas necessariamente não podem ser dessa forma.
É preciso enfatizar que essa atitude - que tem tudo para irritar a todos nós - tem tudo para esconder uma maneira própria que essas pessoas desenvolveram para se relacionarem com suas próprias vidas e também com as informações que recebem. Ou seja: nada mais é do que uma maneira de controlar o cognitivo.
Para que possamos compreender melhor é importante saber a opinião da psicóloga Olga Albaladejo, que detalhou à revista "Cuerpomente" o que se esconde atrás dessa atitude tida como pedante dessas pessoas.
Nós podemos pensar que se trata de uma atitude pedante quando vemos uma pessoa corrigindo qualquer coisa que seja: pode ser uma data, uma palavra, a pronúncia ou a forma como alguém agiu. Em alguns casos, é isso mesmo. Em outros, nem tanto, afirma a profissional.
"Na terapia, surge também outro mecanismo: a imprecisão gera desconforto interno e corrigi-la restaura uma sensação de ordem" explica. Para essas pessoas, mais do que descobrir o erro há a necessidade de indicá-lo. Outras pessoas até notam a falha, por serem afetadas de forma bem superficial, porém nada dizem.
Mas para um determinado grupo o erro é como se fosse um problema não solucionado e que precisa ser reparado imediatamente. Assim, o "pedante" ao corrigir o outro passa a se sentir menos desconfortado, mesmo que o outro/a outra encare aquela situação como de crítica.
"É importante sermos rigorosos: não há pesquisas que nos permitam afirmar que todas as pessoas que corrigem constantemente os outros têm a mesma causa psicológica", explica Olga. “O comportamento pode derivar de conhecimento, hábito profissional, desejo de ajudar, insegurança, perfeccionismo ou busca por superioridade. O contexto, a frequência e a forma de correção são fundamentais", acrescenta a profissional.
Com isso, esse tipo de comportamento tem mais a ver com a necessidade de controlar o cognitivo. E o que é isso? Nada mais é do que a capacidade de termos de deixar nossos pensamentos e nossas atitudes organizadas. Para a psicologia, trata-se de "fechamento cognitivo", portanto a chave da questão dessa matéria.
"É o que Kruglanski e Webster chamaram de tendências de agarrar e congelar: o cérebro precisa captar rapidamente uma explicação e se apegar a ela", acrescenta a psicóloga. Para a dupla, o "fechamento cognitivo" simplesmente é o desejo que se tem por uma resposta definitiva, onde a ambiguidade não faz morada.
Com isso, um grupo de pessoas opta por ordem e previsibilidade, ficando desconfortáveis frente à ambiguidade, querendo ainda escolhas rápidas e com uma dificuldade em deixar em aberto várias formas de interpretações. Mais tarde, outros dois pensamentos surgiram: a busca por uma conclusão de forma rápida e manté-la para que a incerteza não se faça presente de novo.
Resumindo: essas pessoas que gostam de corrigir os outros têm como guia a necessidade de uma conclusão. Logo uma palavra usada de forma inapropriada ou uma explicação não muito certa são compreendidos como algo sem solução.
© Reprodução/TV Globo
O fechamento do cognitivo não é a única necessidade dessas pessoas, que também demonstram interesse de quererem sempre ter razão. "Ter razão se manifesta na relação com a outra pessoa. Posso querer vencer uma discussão, proteger minha imagem ou demonstrar competência. A necessidade de fechamento surge primeiro dentro do indivíduo: preciso que algo se encaixe, que tenha um nome e que seja resolvido", afirma a psicóloga.
"Naturalmente, ambos os mecanismos podem coincidir. Alguém pode sentir desconforto com a incerteza e, além disso, ter aprendido a manter sua autoestima por meio do conhecimento", acrescenta. Diante disso, Albaladejo sugere: O que aconteceria comigo se eu não corrigisse?
Caso se diga "nada, mas a informação é relevante" o mais provável é que seja algo útil. Mas se vier aquele desconforto em último grau, irritabilidade ou a vontade de não deixar de pensar no tema, a correção pode ser um alívio funcional.
Também pode ocorrer de haver o perfeccionismo que se direciona aos demais. Para a profissional, nesse caso "envolve avaliar severamente os erros alheios e esperar que as pessoas ajam de acordo com nossos critérios". Só que vamos nos atentar para algo importante:
"Diferente de como eu faria" não é o mesmo que "mal feito". Quem assume a postura de corretor até chega a pensar que protege a qualidade - por sua vez, o outro fica com sentimento de falta de respeito à sua autonomia. "Em relacionamentos, famílias ou no trabalho, essa dinâmica acaba criando duas posições: a de quem supervisiona e a de quem parece estar constantemente sob escrutínio", aponta a profissional.
Acontece que outros fatores podem ter correlação. "A necessidade de resolução varia de forma relativamente constante entre as pessoas, mas também pode aumentar dependendo da situação", diz a psicóloga Olga. O tempo impondo pressão pode ser um exemplo.
"Na minha experiência clínica, o desejo de consertar as coisas tende a se tornar mais evidente quando uma pessoa sente que outras áreas de sua vida estão caóticas ou fora de seu controle. Esta não é uma conclusão universal ou um diagnóstico, mas sim uma observação que vale a pena explorar individualmente: às vezes, controlar um pequeno detalhe oferece alívio momentâneo de problemas maiores que não podemos resolver tão facilmente", diz a especialista.
Entra em cena ainda a questão profissional. "Quem trabalha na área da medicina, editoração, engenharia, direito ou qualquer campo onde um erro possa ter consequências aprende a detectar erros rapidamente. Essa habilidade pode ser inestimável em seu contexto específico, mas exaustiva quando aplicada sem filtro em conversas do dia a dia", explica Olga.
Só que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Outros fatores tendem a dar sua contribuição para tal necessidade. Entendermos tal atitude pode nos dar coragem para agirmos de forma mais compreensiva com quem nos cerca. E também com nós mesmos.