Os apaixonados por samba e novela no início dos anos 90 devem se lembrar de uma das cenas mais marcantes da teledramaturgia brasileira. A novela ‘Felicidade’ (1991), de Manoel Carlos, exibiu a morte da personagem Tuquinha Batista em uma sequência chocante.
Transmitida no horário das seis, a história chocou o país ao retratar com realismo brutal um crime que, lamentavelmente, continua presente no cotidiano brasileiro: o feminicídio.
Tuquinha, interpretada por Maria Ceiça, era uma mulher vibrante, trabalhadora, dedicada à família, que carregava no peito o sonho de ser um grande nome do Carnaval carioca.
Ao longo da trama, a jovem viveu um relacionamento amoroso, mas, ao mesmo tempo, problemático com Tide (Mauricio Gonçalves), que foi se mostrando um homem profundamente ciumento.
Quando percebeu que a relação não tinha futuro, ela decidiu se afastar, mesmo com as diversas insistências do rapaz. Depois, Tuquinha reconstruiria sua vida ao lado de outro homem, que deu um salto de qualidade em sua vida, tanto moral, quanto financeira.
Manoel Carlos deixou implícito que Tide não aceitaria o término da reação, mas, em momento algum, ficou evidente que o desfecho dos personagens seria trágico, estratégia pensada pelo novelista e a Globo para impactar o telespectador.
No grande dia em que Tuquinha se tornaria porta-bandeira da Estácio de Sá, sua escola do coração, Tide aprece de surpresa no meio da festa. A personagem, muito bem defendida por Maria Ceiça, estava radiante, cercada pela família, pelo namorado e por amigos.
Tudo parecia perfeito. O samba contagiava, os tamborins vibravam e a alegria da personagem transbordava da tela, lembrando que a personagem era uma das mais queridas pelo púbico. Até que Tide surge no meio da multidão, sorrindo, fingindo querer apenas uma dança e um gesto de paz.
Ingênua e generosa, Tuquinha acredita na bondade do ex-namorado. Ali, envolvida pela música que tanto amava, Tide a esfaqueia diante de todos. O Carnaval, símbolo de celebração e liberdade, se transforma em palco de horror.
A cena paralisou o público. No início dos anos 90, mostrar um feminicídio às seis da tarde era algo impensável — e exatamente por isso tornou-se tão impactante. Hoje, com maior debate público sobre violência de gênero, a sequência talvez fosse analisada sob outras camadas, mas continua sendo um retrato poderoso de como a misoginia e a posse masculina podem destruir vidas.
Pouca gente sabe que a história de Tuquinha foi inspirada no conto ‘A Morte da Porta-Estandarte’, de Aníbal Machado (1894-1964), obra que também mistura beleza, drama e tragédia com a estética exuberante do carnaval.
Reassistir à cena neste Dia do Samba é lembrar não só de uma personagem querida, mas de todas as mulheres que, como Tuquinha, tiveram seus sonhos interrompidos por homens que confundem amor com domínio.
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