Não é de hoje que Manuela Dias, autora do remake de "Vale Tudo", enfrenta críticas pela forma como conduz a novela das 21h da TV Globo. Nas redes sociais, sobram comentários sobre roteiro apressado, histórias mal construídas e mudanças questionáveis em relação à versão icônica de 1988. Uma delas envolve a trajetória de Raquel Acioli, que antes foi vivida por Glória Pires e agora está nas mãos da brilhante Taís Araújo.
A mocinha sempre despertou carinho do público, mas a diferença entre as duas versões é gritante. Na trama original, Raquel – uma mulher branca – conseguia superar humilhações e dificuldades, alcançando riqueza e independência com a criação de sua própria empresa, a Paladar.
Já no remake, a personagem até chega a ter esse êxito, mas por um curto período. Poucos capítulos depois, perde tudo e retorna às praias para vender sanduíches, sendo até mesmo colocada em posição de fragilidade diante das rivais Heleninha (Paolla Oliveira) e Celina (Mallu Gali). A mudança não passou despercebida por Taís Araújo, que deu outra dimensão à personagem justamente por ser uma atriz preta.
Em entrevista à Patrick Monteiro, da revista "Quem", ela admitiu ter se surpreendido – e se incomodado – com a guinada na trama. “Esse momento da Raquel voltar a vender sanduíche na praia, confesso que recebi com um susto. Porque não era a trama original. Então, para mim, a Raquel ia numa curva ascendente. Quando vi aquilo, falei: ‘Ué, vai voltar para a praia, gente’. Aí eu entendi que também falei: ‘OK, mas ela está escrevendo uma parte da história’. Vamos embora fazer”, disse.
A atriz reforçou que compartilha da frustração do público. “Também tinha a esperança disso [de Raquel se tornar poderosa e bem de vida] e gostaria muito de vê-la assim. Como mulher negra, como artista negra, queria ver uma outra narrativa sobre mulheres negras”, declarou.
Em outro momento, Araújo foi ainda mais enfática: “Quando peguei a Raquel para fazer, falei: ‘Cara, a narrativa dessa mulher é a cara do Brasil. E ela vai ter uma ascensão social a partir do trabalho. Vai ser linda e ela vai ascender e permanecer’. Isso seria uma narrativa muito nova sobre a mulher negra na teledramaturgia. Quando vejo que isso não aconteceu, como artista que quer contar uma nova narrativa de país, confesso que fico triste e frustrada”.
Sincerona, a atriz ainda destacou a urgência de mostrar outras possibilidades para personagens negras! “É urgente que a gente se veja nesse lugar. A Raquel tinha todas as condições de representar essa nova narrativa. Quando li que não teria, pensei: ‘Ai, meu Deus, não vai ter’. E aí me cabe lidar com a realidade de interpretar uma personagem que não é escrita por mim”, lamentou.
Não por acaso, nas últimas semanas Manuela Dias foi acusada de racismo por parte dos internautas, inconformados com a narrativa “perdedora” de Raquel. “Esse enredo da Raquel escancara duas coisas sobre Manuela Dias: ela é racista e uma PÉSSIMA escritora. E eu nem preciso elaborar. É realmente explícito”, publicou um usuário no X (antigo Twitter), por exemplo.
Sem citar diretamente as acusações, Taís deixou claro que acompanha o debate online e se solidariza com os telespectadores. “Estou vendo tudo que as pessoas estão falando, tá, gente? Vendo, escutando, lendo, entendendo. Me alio para caramba com vocês nesse sentimento. Inclusive, às vezes de frustração. De querer outro movimento. Gostaria muito que o conflito dela fosse de outra ordem. Conflitos éticos com Odete, por exemplo. E aí quando não tem, a gente tem que lidar com o que tem. E o que tem é isso”, avaliou.
No fim, Araújo fez um apelo por narrativas que inspirem e projetem novas realidades para a população negra. “Espero realmente que a vida devolva a ela o que ela dá para a vida. Aí teremos uma narrativa contemporânea. Está na hora de ver a população negra nesse lugar. A vida do empreendedor não é fácil, mas conhecemos muitas histórias de sucesso. A ficção também serve para a gente se sentir possível, para sonhar. Ela tem sim um papel de responsabilidade na construção da narrativa de um país e de como esse país enxerga o seu povo. É sobre isso também”, concluiu.