Quase sete meses após o fim de “Vale Tudo”, as polêmicas em torno do remake assinado por Manuela Dias seguem rendendo repercussão. Nesta segunda-feira (11), Taís Araújo voltou a comentar de forma franca sua experiência na novela durante participação no “Sem Censura”, da TV Brasil. A atriz falou sobre as mudanças no perfil da icônica Raquel e também defendeu Bella Campos, intérprete de Maria de Fátima na versão de 2025.
Taís explicou que foi surpreendida pela condução da personagem ao longo da trama. “O que aconteceu foi que eu fui convidada para fazer uma personagem de quem eu conhecia a história. E, de repente, me apresentaram outra. Eu achei esquisitíssimo aquilo, mas entendi porque novela é uma obra aberta. Eu não sabia que o remake também era, isso eu não sabia”, disse.
Na versão original, exibida em 1988, Raquel - vivida por Regina Duarte - reconstrói a vida após perder tudo por causa da ambição da filha, Maria de Fátima (Glória Pires). Com trabalho e perseverança, ela dá a volta por cima e alcança estabilidade. Já no remake, a personagem retorna à condição de pobreza e chega a ser humilhada por outras figuras centrais da história.
A mudança gerou debates, inclusive sobre o impacto simbólico da narrativa ao colocar uma mulher negra nesse arco dramático.
Em entrevista à Quem no ano passado, Taís já havia comentado a virada da personagem: “Esse momento da Raquel voltar a vender sanduíche na praia, confesso que recebi com um susto. Porque não era a trama original. Então, para mim, a Raquel ia numa curva ascendente. Quando vi aquilo, falei: ‘Ué, vai voltar para a praia, gente. OK, mas ela está escrevendo uma parte da história. Vamos embora fazer’”.
A atriz também destacou suas expectativas em relação à construção da personagem: “Como mulher negra, como artista negra, queria ver uma outra narrativa sobre mulheres negras”. De volta ao “Sem Censura”, Taís refletiu sobre os limites criativos das releituras.
“Novela é uma obra aberta, né? Mas eu não sabia que remake também era aberto, isso eu não sabia. Eu achei que, obviamente, seria reestruturado para se atualizar. A novela foi exibida há quase 40 anos, você tem que fazer atualizações. Mas a espinha dorsal realmente eu não esperava. Em ‘Romeu e Julieta’, tem que morrer no final os dois. Não dá para um ficar vivo, senão não é Shakespeare”, comparou.
Apesar da frustração, a atriz afirmou ter seguido comprometida com o trabalho até o fim. “Me pegou em um lugar muito duro, mas eu entendi. São escolhas e a gente está em um jogo. Por mais que eu fique triste, chateada e frustrada, esse é meu ofício. [...] Depois, eu falei: ‘pronto, vou entregar o melhor possível até o final. Não vou esmorecer porque não estou sozinha’”, disse.
“Tem uma equipe inteira querendo contar essa história, o elenco inteiro querendo contar. Gente, eu não vou ficar ‘tristinha’ ou pegar um trabalho que queria tanto e jogar no lixo, porque essa é minha vida, meu trabalho e meu ganha-pão. Tenho que olhar com ele com muito respeito e honrar muito”, completou.
Taís também comentou as críticas enfrentadas por Bella Campos no início da novela, quando parte do público questionou sua atuação. Para a atriz, o suporte à colega de cena era essencial. “Sem a Maria de Fátima, não tem Vale Tudo. Então, era muito importante que a Bella estivesse forte. Para mim, para a Débora Bloch, para a [autora] Manuela Dias, para a TV Globo, para todo mundo”, afirmou.
“A Bella tinha que estar forte. Eu falava: ‘essa menina não pode fraquejar, senão acabou para todos nós’. O trabalho de uma protagonista de novela não é só chegar a fazer 30, 40 cenas. Você tem uma questão política, é a maneira como você se comporta, o horário que você chega, com o texto decorado, tudo isso influencia”, concluiu.