Desde que o "BBB 26" acabou e me deixou "órfão" daquela mistura deliciosa de barraco, estratégia e entretenimento, passei a fazer o que todo bom viciado em reality show faz quando entra em abstinência: sair caçando formatos aleatórios pela internet. Coitado de mim!
A minha esperança era simples: encontrar alguma pérola trash internacional para preencher o vazio deixado pela Ana Paula Renault, pelos "bafafás" históricos e pelos surtos ao vivo que fizeram a última edição do "Big Brother" valer cada minuto de pay-per-view. Pois bem... eu encontrei. Mas confesso que não estava preparado para o nível de estranheza.
Entre mães flertando ao lado dos próprios filhos (!), videntes competindo para provar quem enxerga melhor o destino alheio e um programa russo tão ofensivo que me fez pausar a tela várias vezes de puro incômodo, a minha maratona virou uma experiência quase antropológica. Eu ri, fiquei constrangido, arregalei os olhos e, em um caso específico, senti genuína revolta.
Abaixo, os três realities mais bizarros que descobri nessa busca desesperada por entretenimento pós-"BBB 26" e por que um deles, sinceramente, jamais deveria ter saído do papel.
Vou começar pelo pior. E quando digo pior, não é no sentido "meu Deus, que trash divertido". É pior no sentido: "como alguém aprovou isso?".
Lançado em 2022 pelo influenciador russo Amiran Sardarov, "I'm Not Gay" ("Eu Não Sou Gay") coloca oito homens confinados em uma casa de campo com uma missão que, por si só, já é grotesca: descobrir qual deles é gay. Sim, essa é a premissa inteira...
Ao longo dos episódios, os participantes passam por uma série de provas baseadas em estereótipos de masculinidade e em piadas homofóbicas para tentar identificar quem seria o "elo fraco" do grupo. Se os héteros acertarem, dividem um prêmio de 2 milhões de rublos. Se o participante gay chegar ao fim sem ser descoberto, leva o dinheiro sozinho.
E eu preciso ser muito honesto aqui: como homem gay, assistir a isso foi profundamente desconfortável.
Não estamos falando de um reality tosco que envelheceu mal ou de uma brincadeira infeliz isolada. Estamos falando de um formato construído em cima da ideia de que ser gay é algo suspeito, vergonhoso, detectável e digno de eliminação pública. É um desserviço completo!
As dinâmicas do programa parecem saídas de um laboratório de mau gosto: participantes recebem lap dances de homens e mulheres enquanto precisam "provar" desconforto ou atração; há testes táteis para adivinhar o gênero de corpos seminus; desafios físicos e desfiles servem para medir quem parece "másculo o suficiente"; e toda a narrativa gira em torno da vigilância de gestos, trejeitos e comportamentos.
Tudo isso é conduzido por ninguém menos que Vitaly Milonov, deputado da extrema-direita russa conhecido por ser um dos arquitetos da famigerada lei de "propaganda gay" assinada por Vladimir Putin em 2013 - legislação criada para censurar qualquer representação positiva ou neutra de pessoas LGBTQIA+ no país.
Não é só uma bizarrice nesse caso... o "I'm Not Gay" funciona como instrumento de humilhação institucional travestido de reality show. Fujam disso!
Saindo da revolta e entrando no constrangimento puro, fui parar em "Mansão das MILFs", aquele tipo de reality que você dá play achando que será apenas um dating show de mulheres maduras em busca de boys novinhos. Já seria cafona o suficiente, vai!
Mas a produção decidiu ir além e transformar o programa numa experiência quase freudiana... é sério mesmo. A dinâmica reúne mulheres entre 40 e 60 anos em uma mansão paradisíaca para encontros românticos com homens mais jovens. Até aí, tudo dentro do universo da pegação televisiva. Só que existe um pequeno detalhe que muda completamente o jogo: os rapazes são os filhos umas das outras! Gente!?
Sim, eu gostaria de estar inventando. Cada participante precisa lidar com a própria vida amorosa enquanto vê o filho flertando com as outras mães - e vice-versa!
O resultado é um compilado interminável de olhares desconfortáveis, conversas íntimas que ninguém queria ouvir, ciúmes cruzados, comentários sobre "desempenho" em dates e uma sensação constante de que talvez Freud estivesse gritando em algum lugar.
Diferente de "I'm Not Gay", aqui o incômodo não vem de violência simbólica. Vem da vergonha alheia mesmo.
A produção da Prime Video sabe exatamente que está brincando com um tabu e faz questão de esfregar isso na cara do público com mães assistindo aos encontros dos filhos, esses filhos reagindo à sensualidade das mães e conta ainda com uns debates constrangedores sobre química e atração.
Eu me peguei várias vezes assistindo por entre os dedos, naquele estado clássico de quem quer desligar a televisão, mas continua ali porque precisa entender até onde eles vão. E vão longe!
O curioso é que, no meio do caos, o programa ainda abre espaço para discussões reais sobre envelhecimento, autoestima, maternidade e desejo feminino. Então existe uma camada minimamente interessante soterrada sob toneladas de cringe. Só que não vou mentir: o que fica mesmo é a sensação de ter invadido uma terapia familiar que nunca deveria ter sido televisionada.
Depois de dois formatos que me fizeram questionar o futuro da humanidade, encontrei "Batalha dos Destinos", reality sul-coreano do Disney+ que parte de uma ideia tão improvável que eu achei que seria piada: colocar videntes, xamãs, astrólogos e leitores espirituais para competir entre si.
Mas, curiosamente, esse foi o que consegui assistir com menos sofrimento. Aqui, dezenas de especialistas em práticas esotéricas participam de missões para provar quem tem a percepção mais aguçada sobre o destino, a energia e o passado de desconhecidos.
Tem prova para adivinhar traumas pessoais, identificar histórias familiares, prever compatibilidades amorosas, interpretar aura e "ler" outros competidores. Parece um grande meme, não é? Mas a edição coreana trata tudo com uma seriedade chocante de ver!
Ao contrário da bagunça proposital de "Mansão das MILFs" ou da agressividade de "I'm Not Gay", "Batalha dos Destinos" é montado quase como um thriller psicológico. Tem trilha tensa, closes bem dramáticos, participantes chorando e revelações editadas para parecerem sobrenaturais. O espectador acaba ficando "hipnotizado", preso naquele limpo de "será que é armação?", "isso foi uma coincidência?" ou "essa pessoa realmente acertou a infância traumática do outro?".
Não achei ofensivo, nem particularmente vergonhoso. Achei... curioso. Só que curioso daquele jeito que suga horas da sua vida enquanto você tenta racionalizar se acredita ou não no que está vendo!
Foi o único dos três em que não senti vontade de abandonar imediatamente... embora eu ainda ache bastante peculiar o fato de um survival show de médiuns funcionar tão bem.
Se a experiência serviu para alguma coisa, foi para me lembrar que o Brasil ainda sabe fazer entretenimento caótico sem perder totalmente a noção. Acabei optando por acompanhar o "Casa do Patrão" mesmo, que pelo menos não entrega uma homofobia recreativa ou mães e filhos em situação de constrangimento to-tal.