A reta final de “Coração Acelerado” promete mexer com as emoções do público. Depois de terminar o namoro com Agrado, personagem de Isadora Cruz, João Raul, vivido por Filipe Bragança, se envolve em uma nova confusão em um bar. A situação preocupa Ronei, interpretado por Thomás Aquino, que procura o rapaz e faz uma revelação capaz de mudar completamente sua história: ele afirma ser o pai biológico do jovem.
A descoberta deixa o sertanejo completamente perplexo. João Raul foi abandonado ainda bebê às margens do Rio Caturama, onde acabou sendo encontrado por Walmir, personagem de Antonio Calloni. Criado com sacrifício e amor, o rapaz teve no pai que o criou uma figura fundamental para sua trajetória. Sabendo do talento do filho, Walmir se dedicou para ajudá-lo a se tornar um astro sertanejo.
Mas o que acontece quando uma revelação sobre o pai biológico coloca em xeque toda a história que uma pessoa conhecia sobre si mesma? A trama abre espaço para uma discussão que vai muito além da ficção: como lidar com feridas familiares e construir uma identidade que não seja definida pelos conflitos do passado?
Em entrevista exclusiva ao Purepeople, a psicóloga Daniela Pereira (CRP: 09/014487), especialista em terapia sistêmica de casal e família, avaliação psicológica e psicoterapia de adultos, explica que relações familiares difíceis podem continuar ocupando um espaço enorme na vida emocional mesmo quando o pai já não está tão presente.
“Uma das coisas que percebemos na clínica é que, mesmo quando a relação com o pai já não é tão presente, ela costuma continuar ocupando um espaço muito grande na vida emocional daquela pessoa”, afirma Daniela Pereira.
Segundo a especialista, algumas pessoas passam a vida tentando conquistar a aprovação do pai, enquanto outras organizam suas escolhas justamente para provar que ele estava errado. Apesar de parecerem atitudes completamente diferentes, existe um ponto em comum: o pai continua no centro da vida emocional.
© Reprodução/TV Globo
A terapia, explica a psicóloga, pode ajudar a mudar essa lógica. Em vez de perguntas como “o que meu pai pensa de mim?” ou “como posso mostrar que ele estava errado?”, surge uma questão mais voltada para a própria identidade: “quem eu desejo ser, independentemente da história que eu vivi?”
Para Daniela, autonomia não significa necessariamente romper com a família ou deixar de amar. Significa recuperar o direito de fazer escolhas guiadas pelos próprios valores, e não apenas pelas feridas do passado.
Na entrevista exclusiva ao Purepeople, realizada a partir das reflexões sobre o Dia dos Pais, celebrado no último domingo (9), a psicóloga Daniela Pereira também falou sobre os diferentes sentimentos que a data pode despertar.
Para algumas pessoas, o momento representa celebração, gratidão e boas lembranças. Para outras, pode trazer à tona a ausência, o luto, a distância ou experiências familiares difíceis. Por isso, ela reforça que reconhecer uma história familiar dolorosa não diminui a importância da família. Pelo contrário: permite olhar para as relações com mais humanidade.
“A maturidade emocional não acontece quando fingimos que a dor não existiu, ela acontece quando conseguimos olhar para a nossa história com honestidade”, afirma.
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A especialista defende que acolher aquilo que marcou a trajetória de uma pessoa não significa permitir que o passado determine todo o futuro.
“Às vezes, honrar a nossa história é justamente ter a coragem de escolher e fazer diferente”, resume.
Assim como João Raul terá de enfrentar uma revelação capaz de transformar sua percepção sobre a própria origem em “Coração Acelerado”, a reflexão proposta pela psicóloga mostra que conhecer a própria história também pode ser o primeiro passo para escolher o que fazer com ela.
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