Existe uma ideia bastante defasada sobre o envelhecimento que indica que, aparentemente, as pessoas mais felizes depois dos 70 anos seriam justamente aquelas que conseguem se manter jovens, tanto em hábitos quanto na aparência. No entanto, para a psicologia do envelhecimento, a verdade é completamente o contrário.
Segundo a psicologia, o que ajuda a manter o bem-estar nessa fase da vida não é a tentativa de sustentar uma juventude tardia, como se o tempo precisasse ser negado. O que faz diferença, em muitos casos, é a capacidade de aceitar as mudanças da vida sem transformar esse processo em sinônimo de fracasso.
Essa é a linha desenvolvida em um artigo da 'Global English Editing', que relaciona esse olhar a pesquisas sobre envelhecimento, satisfação com a vida e saúde emocional.
De acordo com os resultados do artigo, as pessoas mais felizes após os 70 anos não são, necessariamente, as que tentam reproduzir a versão que tinham aos 30 ou aos 50. Em geral, são aquelas que deixam de usar esse passado como régua para avaliar o próprio valor.
Quando paramos de nos comparar com outras fases da nossa própria vida, o envelhecimento para de ser encarado como um processo de perda constante e passa a ser vivido com mais equilíbrio e entendimento. Desta forma, a pessoa passa a construir uma relação de carinho com quem é hoje.
Um dos estudos mais conhecidos nessa área foi conduzido pela psicóloga Becca Levy, da Universidade de Yale, e publicado no 'Journal of Personality and Social Psychology'. A pesquisa mostrou que idosos com percepções mais positivas sobre o próprio envelhecimento viveram, em média, 7,5 anos a mais do que aqueles que tinham visões mais negativas.
A importância desse resultado vai além dos números da longevidade. Ele indica que a maneira como uma pessoa interpreta o próprio envelhecimento pode afetar a saúde, a rotina, o funcionamento da rotina diária e também o equilíbrio emocional.
Quando cada mudança física ou cognitiva é entendida como uma perda de valor, os idosos tendem a sofrer com um efeito psicológico degradante. Aos poucos, a pessoa pode passar a enxergar o próprio presente apenas sob a lógica da falta, da limitação e da comparação.
Por outro lado, uma visão mais liberal sobre o envelhecimento é importante para manter a própria identidade. Em vez de se perguntar o tempo todo o quanto ainda resta de uma versão antiga de si, a pessoa pode reconhecer o quanto mudou ao longo dos anos, se tornou mais experiente, paciente e com discernimento para a vida.
Essa mudança de pensamento, claro, não elimina o fator envelhecimento, mas impede que as lamentações se tornem o centro da vida. De acordo com a psicologia, isso também impacta a qualidade de vida, promovendo menores índices de solidão, uma vez que conversas fluem em tom positivo e não só sobre o passado.
Um dos maiores riscos psicológicos para as pessoas que já passaram dos 70 anos é o olhar exagerado para o passado. Quando isso acontece, o presente quase sempre parece insuficiente, já que o corpo atual é comparado ao de antes, a memória passa a ser vista apenas pelo que perdeu e a energia parece menor do que deveria.
A aceitação rompe com esse mecanismo. Ela não apaga as perdas, mas impede que elas se tornem a única forma de interpretar a própria vida. Isso faz diferença porque permite que o envelhecimento seja vivido com menos rigidez e menos autocrítica.
Sob a ótica da psicologia, o bem-estar na velhice está menos ligado a prolongar a juventude e mais a fazer as pazes com o tempo vivido. Em muitos casos, a felicidade depois dos 70 aparece justamente quando a pessoa deixa de perseguir quem foi e passa a reconhecer, com mais gentileza, quem é no presente.