"Quando você considera alguém como amigo sem confiar nele como confia em si mesmo, você está cometendo um grave erro." A frase, atribuída a Sêneca, voltou a circular com força nos últimos anos e resume bem por que o pensador romano se tornou novamente tão citado em redes sociais, livros de autoajuda e até em terapias contemporâneas.
Em um mundo marcado por relações rápidas e superficiais, o alerta sobre confiança e amizade soa quase como um puxão de orelha elegante.
Conhecido como Sêneca, o Jovem, ele nasceu como Lucius Annaeus Seneca, em Córdoba, na Espanha, por volta de 4 antes de Cristo, em uma família rica. Educado em Roma, estudou gramática, retórica, oratória e filosofia.
Desde cedo, enfrentou problemas de saúde como asma e bronquite, o que o levou a buscar no estoicismo uma forma de lidar com as adversidades da vida. Segundo registros históricos amplamente citados por estudiosos da filosofia clássica, foi justamente essa fragilidade física que moldou sua visão prática sobre sofrimento e resiliência.
Além de filósofo e escritor, Sêneca teve uma carreira política de destaque. Durante o governo do imperador Calígula, foi eleito senador e questor. Em 41 depois de Cristo, porém, acabou exilado pelo imperador Cláudio, acusado falsamente de um caso com Julia Livilla, sobrinha do governante.
O exílio na Córsega durou oito anos e foi ali que escreveu algumas de suas primeiras obras, incluindo tragédias e textos de consolação, segundo relatos históricos preservados até hoje.
O retorno a Roma aconteceu em 49 depois de Cristo, quando Agripina o chamou para ser tutor de seu filho, Nero. Quando Nero assumiu o Império, em 54 depois de Cristo, Sêneca se tornou um de seus principais conselheiros, ao lado de Burrus, prefeito da guarda. Nos primeiros anos, promoveram reformas e um período de relativa estabilidade. Com o tempo, no entanto, o imperador se tornou cruel.
Sêneca tentou se afastar da política por volta de 62 depois de Cristo. Em 65, acusado de participar de uma conspiração falsa, recebeu a ordem de tirar a própria vida. Segundo relatos da época, morreu com serenidade, fiel às suas convicções estoicas.
O estoicismo surgiu na Grécia, por volta de 300 antes de Cristo, com Zenão de Cítio. Para os estoicos, virtudes como sabedoria, coragem, justiça e moderação são os únicos bens verdadeiros. Riqueza, fama e até saúde são consideradas indiferentes, pois fogem ao nosso controle.
A felicidade, portanto, vem de dentro, do domínio sobre pensamentos, escolhas e reações. Sêneca teve o mérito de traduzir essas ideias para o cotidiano das pessoas comuns em Roma.
Em textos como "Sobre a Brevidade da Vida", Sêneca defende que o tempo é nosso recurso mais precioso e que desperdiçá-lo com preocupações fúteis é um erro grave. Já em "Sobre a Ira", ensina que a raiva causa mais danos a quem sente do que a quem a recebe.
Suas 124 Cartas a Lucílio funcionam quase como colunas de aconselhamento, tratando de amizade, morte, moralidade e autoconhecimento. Segundo o próprio filósofo, a filosofia deveria servir para curar a mente, não apenas para acumular ideias.
Em meio a rotinas aceleradas, estresse econômico, excesso de redes sociais e incertezas globais, o pensamento de Sêneca ganhou novo fôlego. Autores contemporâneos como Tim Ferriss e Ryan Holiday retomam suas ideias em livros como The Daily Stoic, citando o filósofo como fonte de equilíbrio emocional e produtividade. Durante a pandemia, a frase "Sofremos mais na imaginação do que na realidade" viralizou e voltou a colocá-lo no centro das discussões sobre saúde mental.
A reflexão mais famosa de Sêneca sobre amizade deixa claro que não existe meio termo quando o assunto é confiança. Para ele, considerar alguém amigo sem confiar plenamente é um erro grave.
A amizade verdadeira exige entrega, lealdade e transparência total. Essa visão segue atual e funciona como um guia valioso para escolher melhor quem realmente merece ocupar um espaço íntimo em nossas vidas, especialmente em tempos de vínculos frágeis e relações descartáveis.