Não é todo dia que o apresentador mais conhecido do Brasil interrompe o "Jornal Nacional" para falar de si mesmo. Mas em 8 de novembro de 2022, William Bonner fez exatamente isso: reconheceu um erro ao vivo e, com humildade, pediu desculpas por ter usado o termo “esquizofrenia” de forma pejorativa na cobertura do segundo turno das eleições presidenciais.
A fala original tinha acontecido no domingo, 30 de outubro, durante a apuração. Ao tentar explicar uma informação trocada no ponto eletrônico, Bonner brincou: “Não é que minha esquizofrenia tenha chegado a esse ponto. Me disseram uma coisa no ponto [eletrônico], que tínhamos uma informação nova”.
A frase repercutiu mal, por reforçar um estigma contra pessoas com transtornos mentais. No dia da retratação, Bonner foi direto com o público: “Alguns dias atrás, no domingo do segundo turno da eleição, eu, por ignorância, usei a palavra esquizofrenia como se fosse sinônimo para uma explicação confusa que eu tentei fazer. Felizmente, eu fui alertado para o erro".
O discurso aconteceu logo depois de uma reportagem especial sobre o transtorno mental ser exibido em horário nobre. "Essa reportagem é uma forma de me retratar pelo meu erro pessoal e também a nossa maneira de ajudar a combater a falta de informação”, completou.
Especialistas explicam que usar uma condição de saúde mental como metáfora para confusão ou incoerência é considerado capacitista e psicofóbico. Isso porque transforma uma doença séria em piada, reforçando preconceitos contra milhões de pessoas que convivem com o diagnóstico. Foi exatamente por isso que o "JN" exibiu reportagem especial sobre esquizofrenia na sequência da retratação.
Segundo a psicanalista e neurocientista Carol Tamminga, em texto para o portal "Manual MSD", a esquizofrenia é um transtorno mental grave, caracterizado por psicose (perda de contato com a realidade), alucinações (como ouvir vozes), delírios, pensamento e fala desorganizados e sintomas chamados “negativos”, como redução de expressividade e motivação. Afeta o desempenho social e profissional e atinge cerca de 1% da população mundial.
Nem a causa nem o mecanismo são totalmente conhecidos; há participação genética (maior risco em familiares), mas o quadro é multifatorial. A idade média de início costuma ser no começo da vida adulta, com variações. O diagnóstico é clínico, feito por profissional de saúde mental a partir dos sintomas e da evolução, e pressupõe pelo menos dois sintomas característicos por seis meses com impacto funcional - sempre descartando outras causas (por exemplo, uso de substâncias ou condições neurológicas).
Há tratamento eficaz e multidisciplinar: medicamentos antipsicóticos, psicoterapia de suporte, psicoeducação familiar, reabilitação e apoio comunitário. Iniciar cedo melhora o prognóstico e reduz recaídas; aderência ao cuidado faz muita diferença na evolução.
Bonner poderia ter deixado a fala passar. Não deixou. Pediu desculpas, deu nome ao erro e entregou informação correta ao público. Num país em que saúde mental ainda é cercada de preconceitos, esse movimento importa e muito! Vale lembrar que mostrar o reconhecimento de falhas também é jornalismo.
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