Há 23 anos, a trajetória de Zezé Di Camargo na política era bem diferente do discurso que hoje movimenta debates acalorados nas redes sociais. Em 2002, o cantor apoiou publicamente Lula, participou de comícios eleitorais, teve uma música transformada em jingle de campanha e recebeu o equivalente a quase R$ 5 milhões pelos shows realizados naquele período. O episódio voltou à tona em meio à recente crise envolvendo o artista e o SBT, reacendendo discussões sobre coerência, memória e posicionamentos públicos no mundo dos famosos.
Nos últimos dias, Zezé Di Camargo dividiu opiniões ao criticar duramente o SBT após o evento de lançamento do canal SBT News, que reuniu lideranças políticas da esquerda e da direita. Bolsonarista assumido, o cantor se incomodou com a presença e os discursos do presidente Lula e do ministro Alexandre de Moraes e pediu que seu tradicional especial de Natal não fosse exibido.
Em vídeo publicado no domingo (14), Zezé causou revolta ao se referir às filhas de Silvio Santos com a expressão “se prostituindo”. “Se puderem fazer um favor para mim, tirem meu especial do ar. A partir do momento em que as pessoas pensam diferente do que o pai pensava, do que grande parte do Brasil pensa, do que eu penso, para mim não faz sentido colocar esse especial no ar. Beijo, amo vocês, amo o SBT, tenho o maior carinho, mas acho que vocês estão, desculpem, se prostituindo”, declarou o sertanejo.
A fala não passou despercebida. A primeira-dama Janja Lula da Silva classificou a declaração como machista. “Falar que as filhas de Silvio estão 'prostituindo' ao convidar e dar voz ao presidente e demais autoridades no evento do SBT News reflete todo o machismo e a misoginia presentes no pensamento e nas ações de homens que seguem desrespeitando a presença de mulheres em espaços de poder, alimentando discursos de ódio contra nós”, afirmou Janja, em declaração reproduzida por veículos de grande alcance.
Diante da repercussão, a CEO do SBT, Daniela Abravanel Beyruti, divulgou uma carta aberta ao público. No texto, ela destacou que a emissora é “isenta e sem partido” e explicou que o objetivo do evento era mostrar pluralidade, reunindo representantes de diferentes correntes políticas. “Ditas todas essas coisas, lamento a forma como temos sido mal interpretadas. Antes de as pessoas verem nosso trabalho, decidiram julgá-lo. Queremos entregar ao Brasil um jornalismo confiável, sem partido, sem lado”, garantiu Daniela, segundo comunicado divulgado pela própria emissora.
Enquanto a polêmica crescia, reportagens relembraram que Zezé Di Camargo teve, no passado, uma relação próxima com o projeto político de Lula. De acordo com informações do UOL, o cantor já recebeu R$ 4,9 milhões, em valores corrigidos, por ter realizado shows durante a campanha presidencial de 2002.
Naquele ano, a campanha de Lula pagou R$ 1.275.000 à empresa de Zezé Di Camargo e Luciano, que ainda atuavam como dupla. Corrigido pelo IPCA, índice do Banco Central, o valor chega hoje a R$ 4.915.028,74. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, assinada por Marcelo Rubens Paiva, a dupla participou de 17 comícios, sendo 11 no primeiro turno e seis no segundo, com um cachê de R$ 75 mil por aparição, o equivalente a R$ 289 mil em valores atuais.
Além das apresentações, a canção “Meu País”, de Zezé Di Camargo e Luciano, virou tema oficial da campanha de Lula em 2002 e foi produzida pela própria dupla, reforçando o vínculo artístico e político daquele momento histórico.