Talvez essa frase em latim soe familiar para você. Em parte porque essa frase de Sêneca é uma reflexão de uma das filosofias que mais se popularizaram nos últimos tempos: o estoicismo. Mas, como afirma o filósofo Tim LeBon, “o Estoicismo (com maiúscula) é muito diferente do estoicismo (com minúscula)”. E hoje vamos nos aprofundar no primeiro para entender como a frase “Non est ad astra mollis e terris via” pode realmente nos ajudar.
O lema “Ad astra per aspera”, gravado na placa do monumento do Complexo de Lançamento 34 da estação da Força Aérea dos Estados Unidos em Cabo Canaveral, talvez seja mais conhecido e podemos dizer que é a versão mais curta, direta e simbólica do ensinamento que Sêneca desenvolve em “Non est ad astra mollis e terris via”. A frase aparece na tragédia “Hércules Furioso” e, traduzida do latim, significa: “não há um caminho fácil da terra até as estrelas”. Antes de ser apropriada por gurus do crescimento pessoal, essa reflexão já deixava claro que toda conquista exige esforço prévio.
As “estrelas” na frase representam a virtude, a excelência e a sabedoria. Hoje, poderíamos associá-las ao sucesso, mas não necessariamente no sentido financeiro. O sucesso verdadeiro não é único: depende de quem o define. Cada pessoa precisa dar seu próprio significado a ele. No entanto, para alcançá-lo, será preciso superar dificuldades e atravessar momentos de dor, algo que, por coincidência, também dialoga com o Bushidō japonês.
No Caminho do Guerreiro, ou Bushidō, tradição dos samurais, reforça-se que disciplina, resistência e superação das adversidades são o caminho para a honra e a realização. Um provérbio próximo ao de Sêneca é “Nana korobi, ya oki” (七転び八起き), que significa: “cair sete vezes e levantar oito”.
Mas é importante não confundir as coisas: tanto o Bushidō quanto o estoicismo não defendem a romantização do sofrimento. Não há nada de heroico em sofrer, nem é obrigatório sofrer para conquistar algo. A ideia de que esforço só vale quando vem acompanhado de dor é equivocada e pode até gerar culpa desnecessária.
O que realmente conecta essas filosofias não é o sofrimento, mas sim uma habilidade essencial da inteligência emocional: a resiliência, que nos ajuda a enfrentar desafios e aprender com eles. Ambas defendem que é possível superar obstáculos — e que isso se torna mais fácil quando aceitamos que eles vão existir.
Se antecipamos que haverá problemas no caminho, como sugere Sêneca, tendemos a nos frustrar menos quando eles surgem. Isso acontece porque desenvolvemos o que a psicologia chama de resiliência antecipatória ou proativa. Ao esperar obstáculos, mudamos a forma como os enxergamos: deixamos de vê-los como ameaças e passamos a encará-los como desafios superáveis.
Essa mudança de perspectiva também impacta o corpo: o estresse passa a ser melhor administrado e pode até se transformar em energia útil para seguir em frente e se reerguer após uma queda.
Do ponto de vista fisiológico, a neurociência explica que, diante de desafios, o cérebro ativa processos que nos preparam para agir e superar dificuldades. Essa capacidade natural de adaptação também é uma forma de resiliência.
Os resultados costumam ser melhores quando partimos do princípio de que haverá obstáculos, pois isso nos prepara psicologicamente e neurologicamente para lidar com eles — mantendo o equilíbrio. Ou seja, reconhecendo as dificuldades de forma realista, sem cair no catastrofismo, e enfrentando-as com a confiança de que somos capazes de superá-las.
Aceitar que não existe um caminho fácil até nossos objetivos, como dizia Sêneca, é dar um primeiro passo fundamental para alcançá-los.