Friedrich Nietzsche, filósofo: 'Na maioria das vezes, quando discordamos de alguém, não é por causa do que essa pessoa diz, mas por causa do tom que ela usa'
Publicado em 15 de abril de 2026 às 15:41
Por Clara Espíndola | Colaborador
Viciada em novela desde criança, Clara é apaixonada por beleza, criada no teatro e troca qualquer programa por uma boa noite de fofoca.
Acreditamos que sabemos manter conversas e nos comunicar porque pensamos que somos racionais. Friedrich Nietzsche não acreditava nisso de forma alguma. Veja qual é a relação do filósofo com o 'BBB 26'
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Friedrich Nietzsche nasceu na Alemanha em 1844 com um objetivo: revolucionar a filosofia tal como era entendida até então. Tornou-se o primeiro filósofo contemporâneo, e seu pensamento foi marcado por sua própria solidão. 

Assim, ele começa a se perguntar por que os homens se comportam como se comportam, e surge sua frase “muitas vezes contradizemos uma opinião quando, na verdade, o que nos desagrada é apenas o tom com que ela foi expressa”, que aparece em “Humano, demasiado humano”. Nietzsche estava se tornando uma espécie de psicólogo avant la lettre.

Se parafrasearmos a frase anterior, poderíamos dizer que “na maioria das vezes em que discordamos de alguém, não é pelo que diz, mas pelo tom que usa”. E essa reflexão choca-se como um acidente de trens com os pensamentos filosóficos clássicos e nos faz entender melhor algumas tretas do “BBB 26”, por exemplo. 

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Sócrates havia desenvolvido a ideia de que o ser humano é um ser racional, e seu pensamento se manteve durante séculos. Nietzsche estava decidido a romper com isso e, por isso, ficou obcecado pela racionalidade do ser humano. Ele queria demonstrar que acreditamos ser racionais quando nossas reações não o são tanto assim.

Somos seres apaixonados, não racionais

Para entender o que o filósofo alemão queria dizer, é preciso contextualizar como seu pensamento se desenvolveu. Quando Nietzsche escreveu “Humano, demasiado humano”, ele estava passando da juventude para a maturidade. 

Ele deixou de ser amigo de Richard Wagner e se afastou do pessimismo herdado de Schopenhauer. Começou a pensar por si mesmo e a questionar tudo o que havia aprendido em seus estudos. 

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Agora, ele quer entender o comportamento humano de outra forma e, por isso, decide mudar o método e torná-lo muito semelhante ao utilizado na ciência: observação empírica e análise, neste caso, do comportamento humano. 

É assim que ele começa a perceber algo que se sente ao longo de todo o livro: os seres humanos têm maus hábitos ao tirar conclusões. E esses maus hábitos são fruto do fato de sermos muito menos racionais do que acreditamos ser. 

Como se fosse um castelo de cartas, essa afirmação derruba a crença de que sabemos conversar. Segundo Nietzsche, não temos a menor ideia.

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Nietzsche defendia que, na verdade, todas as nossas conclusões são motivadas pela busca do prazer. “Inconscientemente, buscamos princípios e dogmas que estejam em sintonia com o nosso temperamento”, escrevia ele. Ou seja, nossas crenças dependem de nós mesmos, algo que a psicologia cognitiva moderna confirma com o viés de confirmação: nosso cérebro dá mais importância e credibilidade ao que se encaixa em nossas crenças. 

Assim, segundo Nietzsche, “a primeira opinião que nos vem à mente quando somos repentinamente questionados sobre um assunto não costuma ser a nossa, mas apenas a habitual, apropriada à nossa casta, posição ou ascendência.” 

O problema, para o filósofo, é que as conclusões errôneas são ratificadas e a sociedade as reforça com incentivos e punições. “Das paixões nascem as opiniões; a preguiça mental permite que estas se tornem rígidas até se transformarem em convicções”, afirma ele, acrescentando que “as convicções são inimigas perigosas da verdade, mais do que as mentiras”, porque são elas que nos fazem acreditar que não estamos errados.

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Criticamos com base nas emoções e não no que realmente pensamos

Se nossas opiniões já são, em sua origem, motivadas pela paixão e dependem do nosso contexto, faz sentido pensar que nossas reações às opiniões alheias também o sejam. Nosso julgamento dos outros está ligado ao nosso estado emocional e, por isso, “criticamos com acrimônia um pensador quando ele enuncia uma proposição que nos desagrada; embora fosse mais razoável fazê-lo quando sua proposição nos agradasse”, escreveu o filósofo. 

Mas não criticamos nem mesmo pelo pensamento em si. Criticamos pela forma como o percebemos, e isso faz com que uma conversa que poderia nos trazer algo se transforme em um debate mais parecido com os do “Supervivientes” do que com uma conversa. 

O tom influencia, como bem explica a regra 7-38-55 do psicólogo Albert Mehrabian, que afirma que a comunicação é transmitida em 38% pelo nosso tom de voz. 

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Um tom agressivo gera uma resposta igualmente agressiva, mas não é só isso. Por reatância psicológica, quando nos sentimos ameaçados por outra pessoa (um tom de voz mais alto, uma linguagem corporal agressiva...), nem sequer processamos o que ela nos diz, apenas reagimos porque percebemos uma ameaça. Ou seja, metade das brigas do “BBB 26” poderiam ter sidos evitadas. Eita!

Mas não apenas reagimos ao tom de voz, como também passamos a julgar a validade do que a outra pessoa nos diz com base na forma como ela o diz. “Não ouvimos as pessoas, mas as classificamos de acordo com a voz com que nos falam”, afirmava Nietzsche.

Talvez essa reflexão do filósofo nos leve a refletir sobre a nossa própria forma de nos comunicarmos e nos incentive a reformular nossas conversas com uma mente aberta, sem interpretar cada palavra como um ataque ao nosso ego.

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